Por Carmo Rodeia

“Entalada” entre dois Bodos – o de Pentecostes e o da Trindade-, não sendo açoriana de nascimento mas a viver nestas paragens vai fazer 21 anos, não resisti à tentação do Espírito Santo.

Até porque, nos últimos dois dias, o papa Francisco interpelou-nos sobre as pessoas que vivem “sem horizonte”, apenas com o “apego ao dinheiro e ao poder” porque acreditam “que assim vivem no paraíso”.

Pior, ainda, é quando esta mentalidade justifica a imoralidade de medidas de ordem económica, financeira ou política que, nos tempos mais recentes, tem a sua máxima expressão na austeridade e no agravamento do fosso entre os muito ricos e os muito pobres, em que uns têm tudo e outros têm uma mão cheia de nada.

É contra isto que nos convocam as Festas do Espírito Santo, marca identitária da açorianidade, que também se celebram no continente português, em Tomar e Alenquer.

Na origem das festas, para além da parte histórica e social, está a narrativa dos Atos dos Apóstolos sobre uma comunidade de partilha integral dos bens, consequência do Pentecostes cristão: tinham tudo em comum, entre os seus membros, não havia indigentes e cada um recebia conforme a sua necessidade.

Julgo que todos nós precisamos de reler esta narração. Os pobres, os ricos, os sem trabalho, os doentes, os idosos, os políticos, os crentes e os não crentes…uma longa lista de pessoas, que sendo mais ou menos periferia deste mundo, precisam de uma verdadeira conversão.

Abrir o coração ao Espírito é ter esta capacidade de não esquecer o que aprendemos e muito mais, ainda, de não nos esquecermos de o viver, recomeçando cada dia como se fosse o primeiro.

Infelizmente, não faltam maneiras de nos fecharmos ao  Espírito Santo: no egoísmo do próprio benefício, no legalismo rígido ou na falta de memória daquilo que Jesus ensinou: viver para servir em vez de vivermos para nos servirmos.

Os meios financeiros, por exemplo, só são verdadeiramente mais-valias quando colocados ao serviço do “bem-comum” porque só assim são geradores de esperança para todos.

A festa do Espírito Santo é tributária deste desígnio.

A entronização de uma criança-imperador é uma subversão política, económica e social.

Se conseguimos ser subversivos durante pelo menos oito semanas nos Açores, o tempo em que se realiza a maioria dos Impérios do Divino Espírito Santo até à Trindade, porque não nas outras 44 semanas?

“Enviai o Vosso Espírito e renovai a face da terra”. Todos falamos do Espírito Santo, mas a terra continua sem ser renovada. Será que o peso do tempo nos fez vergar e desistir?

Monsenhor António da Luz, esta semana, numa entrevista ao Sítio Igreja Açores, sublinhava que era preciso “voltar ao principio”, “abrirmo-nos aos outros” e “refazer o entusiasmo dos primeiros tempos”.

Se calhar, será mesmo preciso um novo Pentecostes para nos refortalecermos e, sobretudo, conseguirmos repartir “cinco pães e dois peixes”. Para além da metáfora…