Pelo Padre José Júlio Rocha

Uma das aventuras mais interessantes da história da humanidade é a forma como, ao longo dos séculos e das culturas, os povos foram tentando entender a noção do divino. Politeístas e monoteístas, animistas e espiritualistas, maniqueístas e panteístas, ateus e agnósticos, os homens declararam-se sempre buscadores de um sentido para todas as coisas, um absoluto que explicasse a precariedade da contingência deste mundo.

É dentro da própria Bíblia, mais especificamente no Antigo Testamento, que descobrimos que a própria ideia de Deus evoluiu no pensamento judaico antigo. Vemos, por exemplo, resquícios de politeísmo numa expressão várias vezes encontrada nalguns textos bíblicos que dizem mais ou menos isto: “O Deus de Israel é maior do que todos os outros deuses”. Quer dizer, existem outros deuses, mas nenhum se compara ao nosso.

É o sírio Naaman que, ao ser curado da lepra nas águas do Jordão, tem uma frase que não deixa de ser temerária: “Agora sei que, em toda a Terra, não há outro Deus senão em Israel”. É uma expressão que afirma o monoteísmo da religião judaica, mas tem um senão grave: Deus é só Deus de Israel e, por isso, todos os outros povos vivem na escuridão de não terem Deus, porque o verdadeiro Deus é propriedade judaica.

Este centralismo religioso atravessa todo o Antigo Testamento, gerando uma fé judaica que não é prosélita, isto é, não precisa de espalhar a religião pelo mundo, de propagar a fé, porque a sua fé e a sua etnia coincidem: basta-lhes serem fiéis ao seu Deus e o resto do mundo são gentios esquecidos por um Deus zeloso do Seu povo escolhido.

É nessa cultura que Jesus entra e vai desorganizar este pensamento etnocêntrico. A uma dada altura, um doutor da lei, para experimentar Jesus, pergunta-Lhe qual é o maior mandamento. Jesus responde à letra aquilo que todos os judeus aprendem na catequese: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.” Mas o doutor da lei não fica satisfeito e faz-Lhe uma pergunta difícil: “E quem é o meu próximo?”

Discutia-se a ideia de “próximo” nas sinagogas e nos périplos rabínicos. Não havia unanimidade. A tese mais aceite era a de que o meu próximo era aquele que partilhava a minha mesa ou, ainda mais, as minhas ideias, sobretudo religiosas. Quanto mais próximo do Deus de Israel, mais próximo de mim.

Jesus responde ao doutor da lei com a parábola do Bom Samaritano. Certo homem cai na berma da estrada, gravemente ferido por ladrões e por lá fica à espera da morte. Um sacerdote e um levita, os próximos por excelência, perante este cenário, passam ao lado, a caminho dos seus deveres. Mas há um estranho, um inimigo, um de outra etnia e de outros costumes, de outra língua e religião, de outra nação e de pensamento completamente alheio que passa por ali. É um samaritano, por quem os israelitas nutrem um ódio miudinho, uma quezília selvagem, como acontece quando o inimigo é meu vizinho. O samaritano enche-se de compaixão e salva o desgraçado.

Com esta história, Jesus mete-se por um caminho perigoso e provoca, cara a cara, o doutor da lei e os seus dogmas, com uma pergunta que o deixa sem alternativa: “Quem achas que foi o próximo do homem ferido?” A resposta do doutor da lei é a resposta de um derrotado: “aquele que usou de compaixão”.

Esta parábola, contada no capítulo 10 de São Lucas, não é apenas uma ode à compaixão. É a declaração universal do Reino dos Céus. Deus não é só de Israel, é Deus de toda a humanidade. O samaritano é a metáfora de todos os seres humanos que não pertencem à nossa etnia, à nossa religião, ao nosso pensamento, à nossa pátria. É o muçulmano, o cigano, o africano, o nórdico, o chinês, o judeu, o tibetano ou o apátrida. A única coisa que liga tudo isso é a compaixão, o amor.

“Vai tu e faz o mesmo”, conclui Jesus diante do doutor da lei. E todos nós somos destinatários desta ordem.

Gosto de conversar com ateus. Com ateus que pensam, não com ateus distraídos, para quem a ideia de Deus nada lhes diz. Aqui há tempos tive a oportunidade de conversar com um italiano, homem simpático e cheio de bonomia, que se dizia descrente. A sua tese era a de que há demasiados deuses no mundo e que cada religião quer o seu deus para si. E dizia que as religiões eram, historicamente, responsáveis por muitas guerras e divisões na humanidade. Conhecedor de alguma teologia, afirmava que Jesus não amava a religião, amava as pessoas.

Não é de todo errática essa última frase: o verdadeiro templo do Espírito Santo é a pessoa humana e a verdadeira religião cristã é uma pessoa: Jesus Cristo. O meu amigo italiano tem um espírito aberto, e está preocupado com os etnocentrismos e nacionalismos divisionistas que grassam no nosso tempo. Infelizmente, diz ele, muita da xenofobia nasce dentro das religiões, e em muitos ambientes, católicos que se julgam donos da verdade.

Depois desta conversa amiga e calorosa, onde eu também alvitrei as minhas teses, disse-lhe: “deves estar mais perto de Cristo do que muitos cristãos”. Ele respondeu-me um “quem me dera”, como quem reconhece que a fé é um dom que ele, infelizmente, não tem.

Sim. A fé é um dom, inseparável do amor, que nos deve levar a pensar em como há, muitas vezes, religião a mais e Jesus a menos.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.