Pelo padre Nuno Pacheco de Sousa

Ano após ano, como manda as tradições e intui a fé destas gentes, cumpre-se a realização da Procissão do Trabalho, à qual o Arcanjo Miguel preside a todo o cortejo religioso nesta Vila Capital, da qual é Padroeiro.

Ainda que este ano a pandemia nos impeça novamente de sair à rua, devemos de nos perguntar o quão importante tudo isto é para cada um de nós, para as nossas famílias e gentes. Não falo apenas dos guardiões ou zeladores das imagens que de ano em ano tratam e veneram as imagens no calor doméstico e familiar, ou daqueles que acompanham o seu patrono.

A dinâmica de uma procissão, ainda que cristalizada e envolta em tradições seculares, é sempre uma oportunidade de encontro com o divino, de folia com os pares, com a comunidade e de salutar convívio uns com os outros.

Mas recentremos a pergunta: O que é uma procissão, o que significa ela para nós, para as pessoas que habitam este ou aquele lugar? Ou se quisermos falar do hoje, que sentido terá um cortejo automóvel apenas com uma imagem, ou até mesmo com Jesus Eucaristia? Será o preço leve e justo a pagar ou a reaver pastoralmente? E os trajetos serão aqueles que mais correspondem às necessidades das comunidades, ou serão os instituídos por tradição ou entre famílias e beneméritos?

Uma comunidade tem sempre outras necessidades, consoante o tempo, o espaço e a evolução. É a capacidade deste mesmo povo que, na cristalização das Instituições, lhe dá um novo colorido, uma prece outra, uma nova necessidade, um outro significado, enquanto o incenso perfuma e a Filarmónica marca o mesmo passo e a sociedade se perfila e se dá a conhecer.

O trajeto desta procissão só poderá ser um: o trajeto da nossa vida, o nosso trajeto para o encontro connosco e com o Deus que nos defende em Miguel, nos abençoa com Maria, a Senhora da Paz, e nos ouve e auxilia em cada mestre que integra esta procissão.

Qual é o trajeto da procissão que precisamos percorrer?

Uma vez mais, antes da Igreja ir ao domicilio, é já as famílias, muito antes, a vir aos Templos e Comunidades a pedir aquilo que lhes faz falta. É o Senhor que vai às suas vidas e mantém-nas, porque: «O mundo gira e a cruz permanece inabalável», porque o mundo gira, enquanto a Igreja às vezes parece perder tempo com coisas de “somenos”, enquanto as pessoas vivem e Deus com elas também.

*este artigo foi publicado no jornal ACrença