Em vésperas de mais uma festa, o acolhimento é a principal prioridade do Reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo, que apela à fraternidade dos cristãos nestes momentos mais difíceis. Em entrevista ao Portal da Diocese deixa ideias para futuro imediato.

Portal da Diocese (PD)- Quem é que presidirá às Festas do Senhor Santo Cristo?

Monsenhor Augusto Cabral (MAC)- D. António Francisco dos Santos, Bispo de Porto. Quem o convidou foi o Senhor Bispo de Angra quando, ainda, era o responsável pela Diocese de Aveiro. Inicialmente estava previsto que pudesse fazer o tríduo mas a recente nomeação fez com que tivesse de encurtar a estada nos Açores e por isso presidirá apenas ao aos eventos de sábado- sermão da mudança- e de domingo- Missa Campal.

 

PD- Ele está familiarizado com o culto do Senhor Santo Cristo?

MAC-Sim, sem dúvida. De resto já lhe passei alguma informação pois nós conhecemo-nos pessoalmente quando ambos eramos reitores, eu do Seminário de Angra e ele do de Lamego.

 

PD- Este ano as festas estão muito próximas das comemorações da canonização de São João Paulo II, dos 23 anos da visita a São Miguel… isto cria um ambiente diferente.

MAC- Sem, dúvida. Já no fim-de-semana passado recriámos a vinda do Papa prestando-lhe ao mesmo tempo um tributo. Ficou tudo bem conjugado.

 

PD- Há alguma novidade nas comemorações deste ano?

MAC- No fundo, mantém-se a mesma matriz. O que pode mudar é um ou outro detalhe. Este ano, como estamos num ano economicamente difícil, decidimos que o tema da nossa festa seria “o Encontro com a Esperança”.

Esperamos que neste momento a fé e a religiosidade popular sejam pelo menos um estímulo para as dificuldades das pessoas, para as dificuldades da vida. Normalmente, quando as pessoas se sentem mais isoladas, em situação mais difícil recorrem à religiosidade popular, mesmo com alguma superficialidade. Não estou a criticar, apenas a constatar e o que tenho verificado é que é em alturas difíceis que as pessoas procuram mais a religião.

 

PD- É uma entrada condicionada mas não deixa de o ser…

MAC- Sim e é preciso saber acolher essas pessoas.

 

PD- Há mais gente a procura-lo?

MAC- Sim, de todas as idades e estratos sociais. Todos os dias somos abordados por muita gente. Procuram apoio material mas nesses casos nós reencaminhamo-las para a Cáritas porque não temos possibilidade de dar resposta. Mas também nos procuram para apoio espiritual. Chega a ser assustador o número de pessoas que nos procura por causa de problemas concretos de famílias destroçadas, conflitos de geração, dificuldades de entendimento, para não falar daqueles problemas de adição como o álcool ou a droga.

 

PD- O Santuário está preparado para este acolhimento?

MAC- A maior parte do meu tempo aqui no Santuário é a acolher estes casos. Julgo que a Igreja é, sem sombra de dúvida, uma resposta importante e sólida para estas pessoas. E esse é um dos méritos do Papa Francisco que nos recentrou naquilo que devemos ser e fazer: ir ao encontro e acolher. Este Papa fez uma clara aposta nas pessoas. Bento XVI desenvolveu o lado intelectual da igreja. Este papa é um pastor no verdadeiro sentido da proximidade: aquele que está ao lado e que no final de uma missa é capaz de dizer aos seus fieis: bom almoço ou rezem por mim.

 

PD- Faltava essa proximidade….

MAC- Sem dúvida. Era preciso alguém que se aproximasse das pessoas. E desenvolvesse esta ideia de proximidade, de presença, naturalmente inspirada pelo Espirito Santo que é quem comanda tudo.

 

PD- Para além da coincidência temporal com este tempo de festa da igreja, há um ambiente físico renovado. As obras melhoraram o acesso ao Santuário?

MAC- As obras vão beneficiar o Santuário. É só uma primeira fase. Agora na fase seguinte a prioridade é a iluminação e nós temos a garantia do Presidente da Câmara de Ponta Delgada que a animação, que é típica do verão, vai passar para a parte histórica da cidade e aqui só ficam os eventos de maior relevo. Agora, não tenho duvida de que as obras vão beneficiar estas festas.

 

PD- Qual é o maior desafio do Santuário?

MAC-É o acolhimento. Seja em que dimensão da vida for, mas sobretudo na dimensão pastoral e religiosa. O acolhimento é uma arte e é uma ciência. Temos de saber acolher porque hoje a forma como acolhemos é determinante. A primeira impressão é decisiva. O que se diz, o que se faz, o que se transmite é absolutamente fundamental para garantir o nosso sucesso no sentido de fazermos com que as pessoas se sintam bem. E, olhe que hoje aparece-nos todo o tipo de pessoas aqui neste Santuário e nós temos de ter uma resposta e ela só pode ser o acolhimento. Temos de ser mestres na arte de bem acolher e para isso, é preciso formar pessoas, treiná-las, porque chegam aqui crentes, não crentes, gente culta mas sem fé… e nós temos de ser capazes de em cada momento acolhê-las de forma adequada.

 

PD- Como é que isso se faz?

MAC- Estamos a tentar formar pessoas. Não vamos descobrir nada, apenas aprender com quem sabe e com quem nos possa ensinar alguma coisa.

 

PD- A diocese tem meios para isso?

MAC– Julgo que com empenho sim. Mas só podemos dar esse passo depois de termos as obras concluídas e elas passam pela criação de espaços adequados a cada uma das funções, desde as pastorais ás de acolhimento e até mesmo de museologia. Naturalmente que nem todas têm a mesma prioridade e num momento de dificuldades temos de definir muito bem o que é prioritário. Estas obras implicam portanto uma mudança de atitude no sentido de lhes darmos vida. Obras e pessoas são fundamentais. Assim que as obras começarem começaremos também a formar pessoas.

 

PD- Esse acolhimento prevê a possibilidade por exemplo de haver uma estrutura para servir de hospedaria a peregrinos?

MAC- Essa é uma valência que está a ser estudada. Queremos ter quartos para pessoas que venham em peregrinação. Mas as obras vão ser feitas por fases e, para já, essa não é a prioritária pois temos de primeiro criar condições para adequar as estruturas da pastoral.

 

PD- O Santuário é um dos cinco Santuários diocesanos. Faria sentido a elaboração de uma espécie de roteiro turístico religioso criado pela Diocese numa parceria com as autoridades regionais?

MAC- Sem dúvida que esse é o caminho e já está a ser ponderado. Ainda recentemente, no encontro que houve de santuários e da pastoral do turismo religioso, a região esteve lá representada. Esperamos agora que destes contactos e destes estudos se façam algumas coisas concretas.

 

PD- As irmãs vão continuar no convento da Esperança?

MAC- Nós contamos com elas. Fazem parte desta enorme família do Santuário e há coisas que só elas sabem fazer.

 

PD- Está afastada a possibilidade da comunidade sair daqui?

MAC- Da nossa parte nunca se colocou a questão, mas essa é uma decisão que não é nossa. O que é importante é reafirmar que as irmãs são necessárias e esta congregação é fundamental para o Santuário porque se trata de sublinhar apenas o que fazem mas como fazem e, nesse capítulo, seria muito difícil a sua substituição.

 

PD- Hoje vivemos dias difíceis. O Monsenhor já o reconheceu relatando o número crescente de pessoas que o procura. Estas dificuldades têm-se traduzido nos donativos ao Santuário?

MAC- É sempre uma preocupação porque o Santuário é um contribuinte liquido da Diocese a vários níveis e por isso, estamos sempre preocupados com as receitas que temos e com o equilíbrio das nossas contas. E, nos tempos que correm, há menos receitas porque os donativos têm diminuído, apesar do nosso pecúlio estar equilibrado e não oferecer grande preocupação.

 

PD- A crise beliscou o montante dos donativos?

MAC- Qualquer coisa. Já se verificou no passado dia 10 com as arrematações. Mas as pessoas continuam a ser muito generosas. Podem dar menos em quantidade mas a dádiva é qualitativamente melhor. Mas há uma redução que não pode ser ignorada. Por exemplo, o número de cartas que habitualmente chegava por esta altura ao Santuário com donativos era muitíssimo maior do que é hoje.

 

PD- O relógio da vida açoriana é comandado por vários impérios. O Do Santo Cristo é apenas um. Como é que o classificaria?

MAC- A nível da religiosidade popular a seguir ao Espirito Santo, que não precisa da igreja porque é feito em casa com uma partilha enorme, é – dizia eu, o maior império de todos. É uma marca histórica que está no coração de todos os açorianos, seja dos residentes seja dos que estão fora. É, aliás, mais fácil esquecerem o Espirito Santo do que esquecerem o Santo Cristo, é isso que me diz a experiência. O império do Santo Cristo é isto. Deixar o Pastor imperar e o Pastor é Deus que deve estar presente na vida de todos .

 

PD- Que mensagem deixa para os que nos visitam ou os que residem e vão viver mais umas festas?

MAC- Apesar da matriz ser idêntica as festas são sempre diferentes. E, este ano, tal como nos outros, vamos fazer todos os esforços para que todos sejam bem acolhidos e se sintam em casa. Queremos fazer desta festa um encontro de esperança para as pessoas, para as famílias, e para as nossas comunidades.