Semana Laudato Si:  Mais de 120 organizações cristãs apelam a que UE “seja fiel aos seus valores fundadores” e apelam à tributação dos lucros excessivos dos combustíveis fósseis

Foto: Agência Ecclesia

Mais de 120 organizações cristãs, de 20 países, uniram-se hoje num apelo conjunto à União Europeia, intitulado “Europa, Sé Fiel à Nossa Casa Comum”, no qual pedem o imposto sobre os lucros dos combustíveis fósseis e fim dos subsídios.

“Enquanto a crise energética e os conflitos globais destacam, mais uma vez, a vulnerabilidade do nosso continente, apelamos à União Europeia (UE) para que seja fiel aos seus valores fundadores da dignidade humana e do respeito aos direitos humanos, e estabeleça metas corajosas para salvaguardar o presente e o futuro”, pode ler-se no documento citado pela Agência Ecclesia.

Entre as organizações signatárias do texto estão as portuguesas Fundação Fé e Cooperação, Comissão Nacional Justiça e Paz e Casa Velha, estando também presentes o Movimento Laudato Si’, a Caritas Europa, a rede CIDSE, várias províncias dos Jesuítas, a Pax Christi International, a Rede Cristã Europeia para o Ambiente (ECEN), o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) e organizações como a UISG e a USG.

“Exigimos ações climáticas justas que protejam imediatamente os mais vulneráveis e garantam os direitos das gerações futuras, incluindo a eliminação gradual dos combustíveis fósseis”, referem.

O documento surge quando a Irlanda se prepara para assumir a Presidência da UE no segundo semestre de 2026, antecedendo a próxima conferência sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis a coorganizar por este país e Tuvalu no início de 2027, e no momento em que os líderes europeus iniciam as negociações sobre o próximo orçamento plurianual da UE.

“A Europa enfrenta uma escolha difícil: liderar a eliminação gradual dos combustíveis fósseis ou ficar ao lado das empresas mais poluentes, responsáveis ​​por metade das emissões globais de carbono”, destacam as signatárias.

Num comunicado enviado à Agência ECCLESIA, o Movimento Laudato Si’ lembra que a “enorme influência destas multinacionais é sublinhada pelo facto de 100 das maiores companhias de petróleo e gás terem obtido mais de 30 milhões de dólares de lucro por hora durante o conflito com o Irão, capitalizando a partir da instabilidade global enquanto agravam a crise climática”.

No apelo conjunto, as organizações da UE expressam “profunda preocupação com o facto de a UE estar atualmente a desmantelar a sua própria legislação e a virar as costas ao seu papel como líder global em questões climáticas”.

As signatárias destacam que, “com muita frequência, a ‘simplificação’ levou à desregulamentação, por exemplo, através da presente legislação ‘Omnibus’ em curso:  adiando compromissos climáticos, aumentando a dependência dos combustíveis fósseis, enfraquecendo a devida diligência e reduzindo as salvaguardas sociais e ambientais.

“Erguemos nossas vozes contra a injustiça e nos solidarizamos com aqueles que fogem da violência e sofrem com os impactos da crise climática, do extrativismo e dos conflitos alimentados pela dependência dos combustíveis fósseis”, afirmam.

No texto, onde citam a mensagem do Papa Leão XIV para a COP 30 em que aborda os mais vulneráveis, as organizações salientam que “ser fiel na Europa significa preservar a dignidade de cada ser humano, o valor intrínseco de toda a criação e agir com coragem e urgência diante da crise ecológica”.

“Significa uma transição justa e rápida dos combustíveis fósseis para uma economia circular baseada em energias renováveis, a fim de proteger nossa casa comum”, acrescentam.

Tendo em conta as necessidades urgentes dos mais frágeis e face à aceleração da crise ecológica, e unindo-se os apelos de líderes religiosos do Sul Global por uma transição justa publicada em março, as organizações exigem quatro ações imediatas.

São elas: a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, o imposto sobre os lucros dos combustíveis fósseis e fim dos subsídios, o investimento em energia limpa e suficiência energética e o financiamento climático e justiça social no orçamento da UE.

“Como o primeiro continente a adotar a economia movida a combustíveis fósseis, a Europa tem a oportunidade e o dever históricos de liderar a transição para uma nova era livre dos combustíveis fósseis. O bem-estar de cada pessoa está em jogo”, assinala o documento.

As organizações lembram que já se estão a enfrentar os primeiros sinais do caos climático e as novas gerações continuarão “a sofrer impactos ainda piores”, a menos que se acabe “urgentemente com os combustíveis fósseis”.

As signatárias do apelo incluem instituições religiosas europeias e nacionais, incluindo Conferências Episcopais, ordens religiosas, ONG sociais e ambientais, organizações de cooperação para o desenvolvimento internacional, e movimentos e comunidades cristãs.

O documento surge num momento em que decorre a Semana Laudato Si’, de 17 a 24 de maio, dedicada ao tema “Da esperança à ação”, iniciativa dedicada ao cuidado da criação e inspirada na encíclica ecológica e social do Papa Francisco, publicada em 2015.

A iniciativa comemora o aniversário do documento escrito pelo Papa Francisco, publicado a 24 de maio de 2015, e que em 2026 celebra 11 anos, assumindo-se como uma celebração mundial de oração, reflexão e ação pela casa comum.

“Este aniversário lembra-nos que a conversão ecológica cresce passo a passo — por meio de relacionamentos restaurados, da criação protegida e comunidades fortalecidas. O próximo capítulo da Laudato Si’ começa connosco, onde quer que estejamos”, assinala.

Ao longo dos sete dias, o movimento Laudato Si’ desafia as comunidades a realizarem uma ação concreta em prol da ecologia integral: “Compartilhe-a na Plataforma de Ação Laudato Si’ — uma ferramenta para a resposta ecológica da Igreja”.

No domingo, o Papa Leão XIV associou-se, no Vaticano, à iniciativa, lamentando a destruição da natureza provocada pelos conflitos armados.

“Infelizmente, nos últimos anos, devido às guerras, os progressos neste campo têm sido muito lentos; por isso, encorajo os membros do movimento ‘Laudato Si’ e todos aqueles que trabalham por uma ecologia integral a renovarem o seu empenho, o cuidado pela paz e o cuidado pela vida”, disse, desde a janela do apartamento pontifício, após a recitação da oração do ‘Regina Caeli’.

A encíclica Laudato Si’, a primeira dedicada ao tema da ecologia, foi inspirada no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, religioso que inspirou o antecessor de Leão XIV na escolha do seu nome.

(Com Ecclesia)

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