O Sítio e o programa de rádio Igreja Açores iniciam uma ronda pelas 17 ouvidorias dos Açores, três meses depois da diocese estar em sede vacante

Olhar para a realidade, identificar e conhecer os problemas, encontrar respostas para eles e protagonistas que saibam corresponder é o grande desafio que coloca a Igreja em sinodalidade, na opinião do ouvidor de Ponta Delgada, o primeiro a ser ouvido numa ronda de entrevistas pelas 17 ouvidorias que o Sítio e o programa de Rádio Igreja Açores vão desenvolver ao longo das próximas 17 semanas, numa altura em que a diocese está em sede vacante.

“Temos que olhar para a realidade; pormos as mãos nos problemas e depois perguntarmos que tipo de Igreja é a nossa e como podemos ultrapassar os problemas: que tipo de padres precisamos em cada lugar, de quantos precisamos; quantos leigos e que leigos… Naturalmente que isso acarretará mudanças mas também encontros e é nisso que se joga a sinodalidade”, adianta Monsenhor José Constância, numa entrevista que pode ser ouvida em discurso direto no programa de rádio Igreja Açores do próximo domingo, que vai para o ar no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, depois do meio-dia.

“Ao ritmo do Sínodo, creio que tendo em conta a Igreja local, que espera um novo bispo, devemos estar alerta para grandes desafios”, refere o sacerdote que é ouvidor de Ponta Delgada desde 2006.

“A Igreja mundial está num avanço radical. Até 2023 este Sínodo não é um `faz tudo´ mas aponta para um avanço radical da Igreja. Do ponto de vista diocesano, e até da Igreja em Portugal, temos de abrir um novo capítulo da história recebendo os desafios que estão a chegar: Temos de re-imaginar uma estrutura diocesana e paroquial diferente e reinventar (…) não se trata simplesmente de esperar a vinda de um novo bispo. Sem dúvida que a alegria de um novo pastor é importante e anima mas o bispo não é o tudo, espera-se é que faça o todo da diocese, criando uma nova estrutura diocesana e pastoral que não seja a mesma e que seja uma resposta real aos desafios que temos agora”, esclarece.

“O Cristianismo não é só a participação nas eucaristias (absolutamente importante), a ação nos movimentos, o que dizemos ou o que publicamos: é atingir a realidade concreta, os problemas das pessoas, as novas pobrezas e dependências” destaca afirmando que “em questões difíceis e fraturantes ainda temos muita dificuldade em agir”. E, exemplifica: “temos algumas dificuldades numa pastoral social coordenada, na denuncia e na atividade sócio-caritativa em ordem a resolver os problemas urgentes não esquecendo a promoção humana”.

“Falta cumprir a dimensão social da fé”, enfatiza reconhecendo que a situação de pandemia que o mundo em geral e a região, em particular, atravessam também não tem ajudado e nalgumas situações “até tem esmorecido o fervor que ainda existia”.

“A pandemia tem enfraquecido a vontade das pessoas e, até as tem desmobilizado”, adianta.

O sacerdote, que além de ouvidor é também o decano do Colégio de Consultores e um dos pastoralistas da diocese, afirma que o único caminho da Igreja só pode ser sinodal.

“A caminhada sinodal implica uma praxis diferente, uma conversão de vida” adianta lembrando que não se trata “de um conceito” ou de “responder a perguntas”, mas de “uma praxis que leva tempo a assimilar e a fazer, de entrar num estilo de vida, de fazer uma conversão”, esclarece. E embora reconheça que nem tudo tem corrido bem, numa ouvidoria “extensa, de grandes contrastes, com problemas e desigualdades muito acentuadas”, e do processo sinodal não ter corrido ao ritmo que gostaria, vê  que “este é o rumo da Igreja”

“Para um avanço radical da Igreja universal e diocesana é a sinodalidade que temos de seguir não como teoria mas como prática, e descobrirmos o caminho que é possível fazer mesmo nestas contingências”, destaca salientando que os entraves existentes são eclesiais, isto é, “de todos nós, de padres, leigos, dos que olham para a Igreja e veem o momento difícil”.

“Ainda temos pouca consciência de que somos povo de Deus e do que isso nos implica”, conclui.

A entrevista de Monsenhor José Constância, ouvidor de Ponta Delgada, a maior ouvidoria da diocese, passa na integra no programa de rádio Igreja Açores este domingo, dia 9 de janeiro, depois do meio-dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.

A Ouvidoria

A ouvidoria de Ponta Delgada é a mais populosa dos Açores. Possui 18 comunidades: 17 paróquias e 1 curato da Várzea. Ao seu serviço estão 29 sacerdotes e um diácono. Existem 8 Capelanias: Hospital, Quatro Cantos, Residência Segura, Casa de Saúde da Conceição, Casa de Saúde de São Miguel, São José de Cluny, Clínica do Bom Jesus e Santa Casa da Misericórdia. Estão presentes 6 institutos religiosos: cinco femininos e um masculino. Tem vários serviços diocesanos sediados na Ouvidoria e quatro equipas de ouvidoria: Catequese e adolescência, Juventude e vocações, Família e Saúde. A Cáritas de São Miguel tem a sua sede em Ponta Delgada, onde existem 11 centros sociais e paroquiais, a Fundação Pia Diocesana do Bom Jesus, a Obra do gaiato e uma residência do Clero.