Pelo Padre José Júlio Rocha

O tempo. O que é o tempo? Será o tempo uma realidade marcada pelo antes e o depois? Ou será uma ficção moldada pelo nosso cérebro? Será ou não uma sobreposição sucessiva de agoras? Os filmes de antigamente eram modelados por fotografias, não sei quantas por segundo, que iludiam a velocidade e nos davam a sensação de movimento, mas, de facto, o movimento não existia: era a sucessão de “frames”, de fotos sucessivas, alinhadas no tempo, que nos davam a sensação de movimento. No cinema clássico não existe movimento: existe uma série de momentos que, rodados a uma velocidade constante, nos dão a ilusão do movimento das imagens. Será que existe movimento ou tudo não passa de agoras, momentos instantâneos, que passam e não ficam, como as películas dos filmes? Se o tempo não é contínuo, se o tempo passa como fotografias sucessivas em continuidade, a quantos “frames” envelhecemos por segundo?

O que sei é que nasci há 53 anos, muitos “frames” antes de agora e que, naquele tempo, os “frames” não eram como agora, levavam mais tempo, e o tempo era uma coisa não possível de contar. As árvores eram mais altas do que hoje, os homens mais tisnados do sol do que hoje, as mulheres mais sólidas e abstratas. O tempo de ontem era uma continuidade lenta e descalça, um levantar antes que o sol nascesse, um deitar até que o sol se pusesse, um queimar do sol nas vinhas, nos pastos, nas eiras.

Meu avô paterno, o Rocha, que desde ao nove anos, antes do sol nascer, desabalava, descalço, no frio do inverno e da primavera, com frieiras nos pés e nas mãos, para as vinhas e cerrados de milho, viveu o seu tempo numa pobreza consentida e predestinada. Nasceu pobre e havia de morrer na pobreza, porque todos os que nascem descalços hão de trabalhar descalços nas vinhas, nos milhos e nas barbearias, aonde vêm os senhores de fazer a barba uma vez por semana, e os pobres, que pagam com uma cambada de milho o cabelo que se lhes corta de três em três meses.

O tempo de antigamente demorava uma vez por dia a passar, exatamente o tempo de um carro da Cidade para a Praia, da Praia para a Cidade. O tempo de cozinhar almoço e ceia, o tempo entre um sol e um outro, o tempo lento, agastado, sem transes de urgência, sem angústias de demora nem metrónomos de contagem.

O “Galo Branco”, alcunha de um amigo de infância de meu avô, veio da zona de Massachusetts, no fim dos anos setenta, revisitar a ilha. Quando partiu, meu avô disse-lhe que não o voltaria a ver: já teria morrido. O facto é que meu avô duraria mais trinta anos. E voltou a vê-lo. E, mais uma vez, o facto é que o tempo não é uma realidade universal mas uma experiência diferente em cada um de nós.

O tempo é o espaço da paciência. Quem não a tem, não tem tempo. Quem a tem, o tempo não passa de uma componente do espaço, onde todas as coisas têm o seu lugar, onde nada vem antes do depois, onde cada coisa precisa do seu lugar, onde amar é sempre a melhor opção.

Nunca me esqueço daquela mulher que, depois de ter morrido o filho num acidente, me disse que só espera que o tempo passe muito depressa, que a vida corra muito veloz, para não ter demasiado tempo para chorar as lágrimas que tem de chorar pelo seu filho. O que dizer do tempo dessa mãe, da angústia de viver um tempo vazio de tudo quanto faz sentido, de ter que passar dias e, sobretudo, noites de não dormir, não sonhar, não descansar, não viver senão a amargura de ter que continuar a viver sem razão ou sem porquê?

Na teoria de Albert Einstein, não existe tempo nem espaço: existe o tempo- espaço, que são a mesma realidade no quase infinito do universo, mas que nós só os percebemos como duas realidades distintas, coordenadas da nossa existência.

Admito que, para Deus, o espaço e o tempo sejam, tal como são, as coordenadas que Ele descobriu para se encontrar connosco. Num Universo onde a luz deve leva 14 mil milhões de anos a atravessar, Deus encontrou uma via rápida para chegar até nós. E conseguiu.

Mais do que o espaço e o tempo, o grande Deus encontrou o Amor como forma de entrar em comunhão connosco. O Amor é a superação do espaço e do tempo.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.