Em Ponta Delgada e em Angra, crianças refletem sobre o valor da partilha no Pão por Deus nos colégios católicos só para assinalar a data

O Pão por Deus nos Açores, que se assinala este domingo, dia 1 de novembro, é uma “tradição muito viva”, impulsionada pelas escolas católicas e que está a ser recuperada como uma tradição cultural pelas escolas do ensino público regional, sobretudo as do ensino básico. Mas este ano, devido à pandemia, a tradição foi desaconselhada.

Em comunicado a Direção Regional da Saúde aconselha a que não se faça o Pão por Deus, na medida em que   “implica, habitualmente, a aglomeração de crianças, muitas delas com idade inferior a 10 anos, as quais não têm a obrigatoriedade de utilizar máscara, bem como a partilha de bens oferecidos por pessoas que não pertencem aos respetivos  agregados familiares”.

O mesmo comunicado adianta, ainda, que “a presente recomendação surge na medida em que importa, a todo o instante, cumprir as medidas de prevenção contra a Covid-19, como sejam a higienização das mãos, distanciamento físico e etiqueta respiratória, medidas estas que poderão ficar comprometidas na efetivação desta tradição por parte das crianças mais pequenas”.

Embora não festejada, a iniciativa é lembrada, sobretudo nas  escolas católicas. Os dois colégios católicos da Região- o Colégio de São Francisco Xavier em Ponta Delgada e o colégio de Santa Clara, em Angra- desenvolverão as suas iniciativas sem saírem para a rua e sempre tendo em conta o momento atual que se vive.

No colégio das Irmãs de São José de Cluny, em São Miguel,  as crianças partilharão o Pão por Deus na escola, visitando os vários serviços do Colégio e em casa,  sem que haja contactos. Os alunos dos cinco anos, como estão integrados num projecto com a Universidade dos Açores farão essa partilha com esses elementos, como adiantou a diretora do Colégio, Irmã Domingas Lisboa.

Em Santa Clara, em Angra, habitualmente as crianças costumam sair e ir ao encontro da comunidade, mas este ano tudo “é diferente”. Cada turma celebrará na sua sala, com a distância e as regras de higiene e segurança, na primeira linha. Haverá partilha de chocolates, de caramelos e bolachas, feitos no Colégio, mas só em ambiente de turma, adiantou a diretora Irmã Helena Godinho da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

A tradição do Pão Por Deus remonta a 1756, um ano depois do sismo que devastou Lisboa. A pobreza que atingia a capital agravou-se com a destruição provocada pelo abalo de terra e um ano depois os lisboetas saíram à rua para pedirem Pão por Deus para “matar” a fome.

Nas décadas de 60 e 70, por imposição da ditadura do Estado Novo, o Pão Por Deus só podia ser pedido por crianças, menores de 10 anos e, apenas, até ao meio dia.

Pão, frutos secos e agora guloseimas é o que costuma ser pedido pelos mais novos que, inclusivamente, se arranjam com sacos bem decorados para irem para a rua pedir.

Hoje, o Pão por Deus mistura-se um pouco com uma outra tradição pagã, o Halloween, importada dos países anglo saxónicos e introduzida no país pelos professores de inglês.

A noite das bruxas leva à rua centenas de crianças que pedem guloseimas. Só que ao contrário das doçuras ou travessuras, no Pão Por Deus, tradição católica, as crianças pedem e se por acaso nada lhes é oferecido não ripostam com qualquer travessura.

O Pão por Deus, juntamente com as romarias aos cemitérios para depositar flores (crisântemos) nas campas, é um dos hábitos do primeiro de Novembro, dia em que a Igreja Católica celebra Todos Os Santos.

Nesta solenidade litúrgica, lembram-se conjuntamente “os eleitos que se encontram na glória de Deus”, tenham ou não sido canonizados oficialmente, como refere a Enciclopédia Católica Popular.

As Igrejas do Oriente foram as primeiras (século IV) a promover uma celebração conjunta de todos os santos quer no contexto feliz do tempo pascal, quer na semana a seguir.

No Ocidente, foi o Papa Bonifácio IV a introduzir uma celebração semelhante em 13 de maio de 610, quando dedicou à Santíssima Virgem e a todos os mártires o Panteão de Roma, dedicação que passou a ser comemorada todos os anos.

A data de 1 de novembro foi adotada em primeiro lugar na Inglaterra do século VIII acabando por se generalizar progressivamente no império de Carlos Magno, tornando-se obrigatória no reino dos Francos no tempo de Luís, o Pio (835), provavelmente a pedido do Papa Gregório IV (790-844).

Segundo a tradição, em Portugal, no dia de Todos os Santos, as crianças saíam à rua e juntavam-se em pequenos grupos para pedir o ‘Pão por Deus’ de porta em porta: recitavam versos e recebiam como oferenda pão, broas, bolos, romãs e frutos secos, nozes, amêndoas ou castanhas, que colocavam dentro dos seus sacos de pano; nalgumas aldeias chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.

O feriado de Todos os Santos é um dos quatros que foi eliminado em Portugal, como resultado do “entendimento excecional” entre a Santa Sé e o Governo português, até 2018.