Das primeiras reuniões improvisadas às centenas de jovens que já passaram pelo lenço azul-marinho, o Agrupamento 1197 do Corpo Nacional de Escutas tornou-se uma referência em Ponta Delgada. Nas bodas de prata, os testemunhos de quem vive o agrupamento por dentro revelam uma história feita de serviço, mar, comunidade e família

Há 25 anos, nasceu em Ponta Delgada uma ideia que parecia simples: criar um agrupamento marítimo do Corpo Nacional de Escutas que unisse o espírito escutista à tradição atlântica açoriana. Hoje, o Agrupamento 1197 de São José é muito mais do que isso. É uma casa, uma escola de valores e um porto seguro para dezenas de crianças e jovens que aprenderam ali a crescer “com um pé em terra e outro no mar”.
Ao assinalar as bodas de prata (até maio do próximo ano), o Agrupamento celebra uma história feita de esforço voluntário, noites de vigília, acampamentos à chuva, manobras náuticas, promessas feitas diante da bandeira e amizades que resistem ao tempo. Uma história escrita por dirigentes e escuteiros, mas sobretudo pelos jovens que ali descobriram um caminho.
“Há jovens que chegam muito tímidos e inseguros e que, passados alguns anos, estão a liderar equipas, a orientar outros e a assumir responsabilidades enormes”, conta a chefe Carla Cidade, uma das vozes mais marcantes da vida recente do Agrupamento. “Isso é talvez o maior orgulho que podemos ter.”
A emoção sente-se-lhe na forma pausada como fala do percurso destes 25 anos, dos quais os últimos três têm sido sob a sua liderança, embora já faça parte do Agrupamento há muitos anos e o apelido Cidade, do marido, tenha história já que Marco Cidade foi um dos fundadores. Para Carla Cidade, o Agrupamento não se mede apenas em números ou atividades, mas nas vidas que ajudou a transformar.
“O escutismo marítimo tem uma dimensão muito própria. O mar ensina humildade, disciplina, coragem e confiança. Obriga-nos a trabalhar em equipa. Aqui, ninguém navega sozinho”, diz com a calma de quem fala com a certeza do coração.
Fundado no seio da paróquia de São José, em Ponta Delgada, o Agrupamento surgiu numa altura em que o movimento escutista procurava reforçar a sua presença marítima nos Açores. O Corpo Nacional de Escutas – maior organização juvenil portuguesa – conta atualmente com dezenas de milhares de elementos espalhados pelo país e pelas comunidades portuguesas no estrangeiro, mantendo como pilares a formação integral dos jovens, o serviço comunitário e a educação pela ação.
Dentro dessa estrutura nacional, os agrupamentos marítimos ocupam um lugar especial. Inspirados nas tradições navais e marítimas, adaptam a pedagogia escutista à realidade do oceano, promovendo competências ligadas à navegação, segurança marítima, ambiente costeiro e espírito de tripulação.
Nos Açores, onde o mar molda a identidade coletiva, essa ligação ganha um simbolismo ainda mais profundo, o que não deixa de causar alguma perplexidade pelo facto de só estarem ativos dois agrupamentos, ambos em São Miguel, de acordo com a página do movimento a nível nacional.
“O mar faz parte da nossa vida desde pequenos”, sublinha João Granadeiro, adjunto do agrupamento. “Mas aqui aprendemos a respeitá-lo verdadeiramente.”
João conhece bem os bastidores da missão escutista. Fala do trabalho invisível, das horas de preparação e da dedicação silenciosa dos dirigentes.
“Muitas vezes as pessoas veem apenas a atividade final, o acampamento, a saída de mar, a cerimónia. Mas existe um enorme trabalho de planeamento e acompanhamento humano. Somos todos voluntários e fazemos isto porque acreditamos profundamente no impacto que tem na juventude.”
Ao longo de um quarto de século, o Agrupamento 1197 atravessou dificuldades logísticas, limitações materiais e mudanças geracionais. Houve anos mais difíceis, reconhecem os dirigentes, sobretudo quando foi necessário garantir embarcações, equipamentos ou espaços adequados para as atividades náuticas. Ainda assim, a persistência falou sempre mais alto. E continua a falar, mesmo diante das dificuldades de não se ter uma rampa de chegada ao mar ao lado da sede ou das dificuldades levantadas pelas embarcações que já são antigas e não cumprem alguns dos requisitos, que as normas de segurança exigem nos dias de hoje para quem navega mar adentro.
“Trabalhamos com quem nos dá a mão” diz Carla Cidade a propósito das parcerias que existem com o Clube Naval da Lagoa e as conversações que decorrem com a Marinha no sentido de poderem desenvolver mais atividades náuticas.
“Lembro-me bem das saídas em grandes veleiros durante uma semana e essa é uma experiência que fica para a vida” afirmou João Granadeiro.
“Tenho pena que hoje sejam menos frequentes” desabafa como quem tem no mar uma casa que aprendeu a respeitar, feita de experiências de fraternidade e amizade.
“Cada geração deixou aqui um bocadinho de si”, recorda João Granadeiro.
“Há antigos escuteiros que hoje trazem os filhos. Isso diz muito sobre aquilo que fomos construindo” refere o jovem escutista de 25 anos que navega nestas águas desde um ano de idade, quando pela mão do tio, outro fundador, começou a frequentar esta casa que é hoje a sua casa.
Tiago Ventura, guia da secção de marinheiros do agrupamento, chegou mais tarde, apenas há 7 anos, em busca de algo diferente do que tinha no futebol ou noutros ambientes.
“O agrupamento ensinou-me a sair da minha zona de conforto”, confessa.
Tiago Ventura, que antes de falar pediu se podia alinhavar no telemóvel umas ideias, expressa-se com o entusiasmo de quem encontrou ali um espaço de pertença e quer agora partilhar com os olhos e com as mãos o que ali vive. A emoção parece saltar-lhe mais depressa do que as palavras, mas do seu entusiasmo sobra a afirmação: “Aqui criam-se laços muito fortes. Somos amigos dentro e fora das atividades. Há um espírito de família.”
Quando descreve as saídas para o mar, o brilho no olhar torna-se ainda mais evidente.
“Há momentos que nunca esquecemos. Estar no mar ao nascer do sol, remar em equipa, sentir que dependemos uns dos outros… isso muda-nos.”
Essa dimensão humana é precisamente aquilo que os dirigentes consideram ser o verdadeiro legado do Agrupamento. Mais do que formar escuteiros, trata-se de formar cidadãos.
Ao longo destes 25 anos, centenas de jovens passaram pelo Agrupamento 1197. Muitos seguiram caminhos diferentes, mas continuam ligados à experiência escutista que viveram em São José.
“Escuteiro uma vez, escuteiro para sempre e sempre alerta”, reafirma Tiago Ventura.
Carla Cidade acredita que esse impacto perdura muito para além da juventude.
“O escutismo fica para a vida. Pode passar muito tempo, mas os valores permanecem: o serviço, a honestidade, o espírito de missão, o respeito pelos outros.”
As comemorações das bodas de prata pretendem precisamente homenagear esse percurso coletivo. Mais do que celebrar o passado, o agrupamento quer reafirmar o compromisso com o futuro.
Num tempo marcado pelo individualismo, pela velocidade digital e pela dificuldade crescente em criar relações humanas sólidas, o escutismo continua a oferecer algo raro: tempo, presença e comunidade.
“Os jovens precisam de sentir que pertencem a alguma coisa”, afirma João Granadeiro. “E nós tentamos oferecer isso: um lugar onde cada um conta.”
À medida que o Agrupamento Marítimo de São José entra no seu 26.º ano de existência, permanece fiel ao lema que parece definir toda a sua caminhada: navegar juntos.
Com um pé em terra, outro no mar. E o coração inteiro ao serviço dos jovens. Juntar muitos corações seria, porventura, o maior desejo no momento de soprar as velas.
“Sermos mais: sermos mais lobitos, mais moços, mais marinheiros, mais companheiros, mais dirigentes. Esse seria o grande presente de aniversário e é para isso que trabalhamos todos os dias”, conclui a chefe.
Ao todo, segundo dados do Movimento em 2019, são 18 os agrupamentos ativos em todo o país. Nos Açores são dois- um em Ponta delgada e outro em Vila Franca do Campo-; participam em muitas ações. Este fim de semana, em São Miguel, vão ajudar na separação dos alimentos doados ao Banco Alimentar, cuja campanha decorre nos dias 30 e 31 de maio, e no mês de julho estarão na distribuição das Sopas do Espírito Santo da festa em Ponta Delgada, no campo de São Francisco. Também participarão no XVI Jamboree, no campo escutista de Lagos (Água d’Alto, concelho de Vila Franca do Campo), que decorre de 21 a 27 de julho. Para trás ficou uma participação no Encontro Nacional de Guias em Sesimbra, a 16 e 17 de maio, com a participação de três guias de três secções do agrupamento.





