Pároco da Igreja Matriz de São Sebastião presidiu à Missa de coroação da 23ª edição das Grandes Festas do Divino Espírito santo de Ponta Delgada, que hoje terminam com a coração à tarde, na qual participarão 90 coroas e 100 bandeiras das 24 freguesias do concelho

O cónego Adriano Borges afirmou este domingo que o grande desafio do Pentecostes é construir comunhão na diversidade, defendendo que a unidade da Igreja e da sociedade não exige uniformidade de pensamento, mas antes a capacidade de viver e caminhar juntos no respeito pelas diferenças. A mensagem marcou a homilia da Missa de Coroação da 23.ª edição das Grandes Festas do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada.
Partindo da solenidade do Pentecostes, o sacerdote contrapôs a narrativa bíblica da Torre de Babel à descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, explicando que Deus não pretende que todos sejam iguais.
“O Pentecostes não é a festa da mesma linguagem, mas da valorização da diferença”, afirmou, acrescentando que, mesmo falando “línguas diferentes”, os homens podem compreender-se porque “se sabem amados por Deus na sua singularidade”.
“O grande desafio do Pentecostes é a comunhão, mais do que a unicidade”, sublinhou, defendendo que a verdadeira riqueza nasce da diversidade.
“Não temos de pensar todos da mesma maneira nem de ser todos iguais. O que o Espírito Santo nos ensina é a entendermo-nos apesar das nossas diferenças.”
Na homilia, o pároco da Matriz alertou para os riscos de qualquer projeto que procure reduzir uma comunidade a uma única forma de pensar ou de agir e advertiu para as consequências de ideologias que procuram transformar uma sociedade “numa só coisa”, fazendo eco das experiências totalitárias do século XX.
O sacerdote aplicou esta reflexão tanto à vida da Igreja como à organização da sociedade. Defendeu que a comunhão exige respeito mútuo e capacidade de diálogo, deixando uma interpelação que abrange igualmente os responsáveis políticos. Segundo afirmou, também os decisores políticos devem saber respeitar-se uns aos outros, procurando uma comunhão orientada para o bem comum, em vez da imposição de posições ou da divisão permanente.
A propósito da vida eclesial, o cónego referiu-se à recente desobediência da Fraternidade de São Pio X, que levou à excomunhão de seis dos seus membros, considerando que um ato formal de desobediência ao Papa provoca uma ferida na Igreja, “que é Corpo de Cristo”. Convidou, por isso, os fiéis a rezarem para que essa fratura possa ser sanada.
Dirigindo-se à assembleia, destacou ainda a realidade açoriana como exemplo de diversidade vivida em unidade. Apesar das diferentes pronúncias, tradições e formas de celebrar até a festa do Espírito Santo entre as ilhas, disse que a fé permanece o elemento agregador. Referiu igualmente que os bairrismos, quando existem, não devem ferir suscetibilidades nem comprometer a comunhão entre os açorianos.
“Somos pequenos em terra, mas grandes no mar”, observou, lembrando que os açorianos enfrentam desafios comuns, desde a força da natureza às diferenças próprias de cada ilha.
Na conclusão da homilia, Adriano Borges desejou que o Espírito Santo conceda aos fiéis “a graça de nunca nos tornarmos numa nova Babel, mas numa nova Jerusalém”, onde cada povo, falando a sua própria língua, é capaz de compreender o outro. Citando Santo Agostinho concluiu afirmando: “No essencial, a unidade; na dúvida, a liberdade; em tudo, a caridade.”
O cónego Adriano Borges apelou, ainda, à generosidade dos açorianos para com o povo venezuelano, recordando que as coletas deste domingo se destinavam a apoiar as vítimas dos dois sismos que atingiram o país, provocando para já cerca de cinco mil mortos e cerca de 17 mil feridos, num imenso rasto de destruição. Lembrando a experiência sísmica dos Açores, o sacerdote sublinhou a proximidade que une os dois povos perante a tragédia. “É um povo que já sofreu o que nós sofremos e quem sabe um dia não voltaremos a sofrer”, afirmou, convidando os fiéis a responderem com solidariedade.
A 23ª edição das Grandes Festas do Divino Espírito Santo começou na quinta feira com uma conferência inaugural e termina hoje com a realização da Coroação que levará às ruas do centro histórico de Ponta Delgada cerca de 90 coroas e 100 bandeiras, representativas das irmandades espalhadas pelas 24 freguesias do concelho. Esta festa é celebrada desde 2024 e é organizada pela autarquia.







