Por Carmo Rodeia

A ideia lançada este fim de semana na minha terra, em Beja, pelo Presidente da República, é interessante e dá um belo soundite.

Na Ovibeja, a maior feira do Alentejo e um dos certames agrícolas mais importantes do país, o Presidente da República afirmou que é preciso preencher e vencer rapidamente o défice de esperança que existiu durante uns anos em Portugal porque “há razão para esperar um futuro melhor”.

“As pessoas estavam com um certo défice de esperança, é preciso preencher o défice. Fala-se de défice de tudo, de défice do orçamento, e não se fala do défice de esperança, que existiu durante uns anos em Portugal e é bom que esse défice seja vencido rapidamente”, eis as palavras citadas pelos jornais.

A afirmação do presidente trouxe-me à memória um texto de José Tolentino Mendonça- “Esperar contra toda a Esperança”- editado pela Universidade Católica, na coleção Argumento, no ano passado, onde o teólogo e poeta afirma que “Se um elogio da esperança tem hoje cabimento é o de uma esperança que aceita a prova de fogo da desesperança”, que afinal é-nos alimentada diariamente pelas notícias, pelas opiniões, pela realidade… enfim pela vida e pelas suas circunstâncias.

Tem razão o Presidente Marcelo quando  nos desafia a desinstalar-nos da vida desesperançada.

Na encíclica “Salvos na Esperança” (2007), Bento XVI diz que “A esperança, em sentido cristão, é sempre esperança também para os outros. E é esperança ativa, que nos faz lutar para que as coisas não caminhem para o fim perverso. É esperança ativa precisamente também no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus. Somente assim, ela permanece também uma esperança verdadeiramente humana”.

O Papa parte de uma passagem da Carta de São Paulo aos Romanos, (versículo 24 do capítulo 8), onde se lê que “foi na esperança que fomos salvos”.

A esperança é uma das três virtudes teologais, juntamente com a fé e a caridade. E colocada à prova, num mundo em constante mutação, é uma das pedras basilares da vida cristã.

O nosso mundo está fortemente marcado pelo relativismo, pelo subjetivismo, pelo egoísmo, e por todos os ismos que nos acabam por nos instalar, e por isso,  falar de esperança é darmo-nos mais uma oportunidade. Não de alcançar algo, mas de chegar ao essencial: a Deus e isso significa rejeitar a indiferença e olhar para os outros. Sejam os que estão próximos sejam os que estão mais distantes.

Olhar para os outros é ver os que sofrem pela guerra, pela falta de trabalho, pela exploração ou pelo abandono. É olhar para os pobres, para os refugiados, para os desempregados, para os indigentes, para os doentes, para os idosos, para as crianças e também para os que têm todas as riquezas materiais do mundo.

Se acreditamos num Deus com rosto, com rosto humano, que reconcilia, que supera o ódio e nos dá a paz, então temos de ter esperança… deve ter sido isso o que o Presidente quis dizer. Deve ter sido por isso que fiquei seduzida…tenho mesmo de recuperar a esperança.