Por Carmo Rodeia

Quem nunca teve vontade de chorar que se acuse mas que não é muito frequente vermos um líder a chorar perante as câmaras, genuinamente emocionado e comovido (para evitar dizer chocado) perante uma situação de vulnerabilidade do seu próximo, ainda que a conheça previamente, lá isso não é. Sobretudo, quando esse líder é um papa, mesmo que seja o Papa Francisco, que nos tem habituado a atitudes e comportamentos fora do convencionado e do convencional, o que não é bem a mesma coisa.

Francisco foi à ilha de Lesbos e emocionou-se. Já o tinha feito em Lampedusa ou quando visitou a América Latina. Mas no regresso a Roma, em declarações aos jornalistas dentro do avião, a sua vontade de chorar era ainda maior e fe-la sentir perante a incompreensão teimosa de alguns, na interpretação do seu mais recente documento a Alegria do Amor.E, num tom incomodado, a tocar a comoção afirmou que não havia duvidas de que a sua exortação pós sinodal sobre a família abre caminho a novos procedimentos dentro da igreja; que a família está em crise em todo o mundo; que a família é a base da sociedade; que os jovens não se querem casar; que falta trabalho; que as crianças crescem sozinhas; que há uma queda da taxa de natalidade na Europa que dá vontade de chorar…e dá mesmo.

Este é um problema que pelos vistos só preocupa quem trabalha na estatística porque quem devia acautelar esta situação, gravíssima para a sustentabilidade da sociedade, anda entretido em propor temas mais fraturantes.

Portugal vive um grave problema de envelhecimento da população. As mulheres têm cada vez menos filhos e a opção de ser mãe é tomada cada vez mais tarde. A situação agravou-se nos últimos tempos. Adiar o nascimento do primeiro filho é uma tendência que se vem registando nas últimas décadas em Portugal: nos anos 60 era habitual as mulheres serem mães aos 25 enquanto nos últimos tempos a maioria decide ter filhos quando passa a barreira dos 30.

Nos Açores, duas das mais pequenas ilhas do arquipélago, e com uma população muito envelhecida, Flores e Graciosa, procuram combater a baixa taxa de natalidade apoiando, por exemplo, financeiramente as famílias com bebés.

Na Graciosa por cada duas pessoas que morre apenas nasce uma. A ilha tem pouco mais de 4 mil almas. Nas Flores, nem chega a esse número. E apesar de nos Açores os valores da natalidade ainda serem ligeiramente acima da média nacional, são tão baixos que segundo os especialistas impedem a renovação de gerações. Ou seja, em breve teremos uma população com poucos adultos a entrarem no mercado de trabalho e uma população extremamente envelhecida.

Não se trata de retórica pró-natalista mas de encarar um problema sério e como uma causa, que tem causas por trás e que radicam numa questão de prioridades.

Ontem como hoje, e o Papa sublinha-o na exortação apostólica sobre a família, o essencial do matrimónio não é a procriação mas sim o amor. Os filhos têm de entrar nessa equação. Se sim, muito bem. Se não, paciência. Afinal a liberdade de cada um e as condições económicas famigeradas de todos acabam por se conciliar numa clara aversão à maternidade, por mais condições estruturais que existam, se não houver vontade nunca estarão reunidas as condições para ela. E hoje parecem estar cada vez menos reunidas, porque a liberdade não para de fazer exigências…  e a permanente insatisfação, também dá vontade de chorar. E, já que se chora, que pelo menos não tenhamos filhos por perto. É pena que tenhamos chegado aqui.