A “demora”  que desertifica

Por António Maria Gonçalves

Foto: António Maria Gonçalves/IA

 

Há muito que a Ilha das Flores convive com um mal silencioso: a demora. Não apenas o tempo que passa — esse é benigno e inevitável — mas a demora que adia decisões, compromissos e obras essenciais à vida quotidiana de quem aqui permanece. Esta forma de lentidão, tantas vezes revestida de burocracia, indecisão ou mero cálculo político, tem contribuído de maneira decisiva para a desertificação que hoje nos inquieta.

A história recente da ilha está marcada por esses ritmos arrastados. Lembramo-nos do processo moroso da localização do porto, prolongado num ping-pong que atrasou o motor económico que ele representa. Recordamos o cabo de fibra ótica, que só à segunda vez chegou ( com atraso de vários anos já que da primeira, atravessou a Região mas deteve-se no Faial); os remendos acumulados nas nossas estradas que perduraram quase uma década após o anúncio da repavimentação das nossas estradas, os estudos sucessivos para um porto de recreio das Lajes e agora o de Santa Cruz, que tardaram a  sair  do papel, a rentabilização plena do aeroporto ( na altura o quarto a ser construído- graças ao Acordo Luso Francês-  que durante anos aguardou pelas  ligações regulares à altura das necessidades, e, ainda hoje  a indefinição sobre a iluminação da pista do mesmo — algo tão importante, com benefícios tão evidentes sobretudo no inverno, –   enfrentamos continuamente as mesmas entropias políticas bem evidentes nas obras do porto das Lajes , destruído em 2019 . São entre muitos outros, alguns capítulos desta narrativa repetida que sempre encontra uma justificação para o retardamento da realização atempada do que faz falta.

A soma destes atrasos pesa. Pesa nas famílias, na economia e no ânimo coletivo. Pesa sobretudo na decisão dolorosa de muitos florentinos que, perante a falta de condições para aqui permanecerem, optaram por partir. Sei-o bem: grande parte da minha própria família fixou-se em Ponta Delgada (onde hoje reside uma das maiores comunidades das Flores), uma de  tantas outras que a ilha viu partir ao longo das últimas décadas. Não foram escolhas leves. Foram arranques de raiz, partos difíceis, fruto da necessidade de estabilidade profissional, de cuidados de saúde, de educação para os filhos — direitos básicos que qualquer comunidade deve poder assegurar aos seus.

A verdade é que, ano após ano, se repetem promessas, reivindicações e Comunicados do Governo que raramente rompem o círculo da expectativa adiada. Compreendo o peso da demografia, dos números, do peso eleitoral, da insipiente massa crítica de todos nós florentinos, enfim, da fraca capacidade reivindicativa que uma ilha pequena naturalmente tem. Mas compreender não significa aceitar resignadamente.

Não podemos permitir que se instale a sensação de indiferença — sensação que fere, porque roça o desprezo — perante quem escolheu permanecer. Uma visita anual do Governo, obrigatória por Estatuto, não deve ser um ritual apressado, incapaz de ouvir as pessoas, de sentir a ilha, de compreender a urgência das suas necessidades. A última, limitada a escassas horas, foi para muitos um momento politicamente inédito a que quase todos  chamou de humilhante. Se os problemas são quase  sempre os mesmos ( reivindicações que se repetem ano atrás de ano, então o que está a falhar não é o diagnosticado: é o agir. Resolver. Fazer!

A Ilha não pede o supérfluo. Pede apenas aquilo que dignifica uma comunidade e lhe permite viver com segurança, com esperança e com futuro. A demora — essa velha conhecida — não pode continuar a ser o nosso destino. É tempo de a substituir por compromisso, ação e respeito. Que se decida e prometa só aquilo que for para cumprir, a seguir. Só assim poderemos travar a sangria demográfica que ameaça a nossa identidade e o nosso lugar no mapa humano dos Açores.

Há quem afirme, que , afinal as Flores está a corrigir o processo de despovoamento que que se vinha verificando, fruto da crescente leva de imigrantes (algumas dezenas de nacionalidades ) que todavia, só iremos perceber a sua mais valia quando conseguirmos a sua inclusão . Para que essas pessoas contem e pesem verdadeiramente na nossa geografia, precisamos de sentir que estão integradas e a interagir em toda a plenitude com os que cá estão. Que se faça nesse sentido tudo o que for possível e só depois se contem quantos somos realmente. Esse deveria ser um trabalho a realizar por quem de devido e também sem “demora”.

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