“A dor de Jesus não é para termos pena, mas para nos contagiar com a sua compaixão”- Padre Bruno Espínola, que presidiu à festa

A Ilha de Santa Maria voltou a viver intensamente as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, uma das mais emblemáticas manifestações religiosas da comunidade mariense, celebrada no domingo da Ascensão do Senhor e marcada por momentos de profunda devoção, tradição e convívio popular, uma semana depois da festa ter ocorrido em São Miguel.
A missa solene, este domingo, foi presidida pelo padre Bruno Espínola, que na sua homilia deixou uma forte reflexão sobre a vivência da fé cristã no mundo atual, apelando à compaixão, à proximidade e à autenticidade da vida cristã.
“A Palavra de Deus, quando nos é dirigida, é mesmo para nós”, começou por afirmar o sacerdote, sublinhando que os cristãos devem manter “os pés bem assentes na terra”, para conseguirem olhar verdadeiramente para aqueles que caminham ao seu lado.
Na sua reflexão, o padre Bruno Espínola alertou para a indiferença que marca a sociedade contemporânea.
“O mundo ensina-nos a sermos indiferentes… e nós, que até nos dizemos cristãos, por vezes tornamo-nos indiferentes”, afirmou. Recordando o quadro da Via Sacra que retrata o encontro de Jesus com as mulheres de Jerusalém, o sacerdote destacou que muitas vezes os fiéis se deixam “contagiar por este mundo” sem sequer se aperceberem disso.
Durante o sermão da mudança e também hoje na homilia da Missa solene, lançou ainda uma interpelação aos presentes: “O que é que, na fita do tempo da nossa vida, faríamos se Jesus passasse por nós e nos perguntasse o que dizemos de nós mesmos?”. Questionou também se Cristo reconheceria os cristãos na sua verdadeira identidade e que testemunho dariam perante “este Jesus sofredor, que se fez alimento”.
O sacerdote recordou que Jesus “entregou-se e morreu por nós para que a nossa vida seja um espelho daquela que foi a sua vida”, acrescentando que até nas dores e sofrimentos os cristãos são chamados a encontrar sentido e missão.
“A dor de Jesus não é para termos pena, mas para nos contagiar com a sua compaixão”, frisou, apelando à capacidade de “compadecermo-nos uns dos outros”.
Na homilia, destacou ainda que “é na confiança que encontramos a misericórdia de Deus”, explicando que o sofrimento “não tem valor por si”, mas que é precisamente na dor que Cristo manifesta de forma mais profunda a sua misericórdia.
O padre Bruno Espínola refletiu também sobre o significado do título “Senhor Santo Cristo dos Milagres”.
“Senhor, porque só há um; Santo, porque é perfeito; Cristo, porque é o verdadeiro Filho de Deus, que nos veio ungir para que não nos fixemos na dor; e dos Milagres, porque cada um de nós sabe que Jesus fez muitos milagres e continua a fazer”, afirmou.
As festividades decorreram ao longo de três dias, mantendo a estrutura habitual. O programa iniciou-se na sexta-feira, 15 de maio, com a iluminação da fachada da Igreja de Nossa Senhora da Vitória, abertura do arraial, bazar e tasquinhas. A animação musical contou com a participação de bandas locais e cantadores de São Jorge, São Miguel e Terceira, com modas antigas, cantigas ao desafio e desgarradas.
No sábado teve lugar a Missa da mudança da Imagem, seguida da tradicional procissão, num dos momentos centrais das celebrações. À noite, o destaque foi para o concerto da Filarmónica de Vila Franca do Campo.
O domingo ficou marcado pela Missa solene e pela procissão pelas ruas de Vila do Porto, que voltou a reunir centenas de fiéis e visitantes. O encerramento das festas conta com atuações musicais, incluindo Jorge Guerreiro, a Filarmónica Recreio Espírito Santo de Santa Maria e fogo de artifício à meia-noite.
Com mais de meio século de história, as festas foram iniciadas em 1971 por funcionários do aeroporto, permitindo aos micaelenses residentes em Santa Maria cumprir promessas sem necessidade de se deslocarem a São Miguel.
O provedor da Irmandade, Hélder Pimentel, destacou a importância social da instituição, que ao longo do ano apoia famílias carenciadas na aquisição de medicamentos, óculos e outros bens essenciais.
“As ofertas que recebemos revertem para ajudar quem mais precisa”, sublinhou.
Apesar das dificuldades na mobilização dos mais jovens, a organização garante o compromisso de manter viva uma tradição profundamente enraizada na identidade religiosa e cultural da ilha.
“O meu pai foi um dos fundadores e eu prometi-lhe que enquanto pudesse esta festa contaria sempre comigo”, concluiu Hélder Pimentel.
Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Santa Maria com críticas à falta de transportes


