Por Osvaldo Cabral

Assinala-se, hoje, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que surgiu no pontificado do Papa Paulo VI, nos anos 60, numa época da consolidação da televisão, da rádio e do cinema como grandes massificadores de informação.
Inspirado pelo Concílio Vaticano II, Paulo VI instituiu este dia comemorativo, encarando já nessa altura a tecnologia como “maravilhas da técnica” e instrumentos magníficos para a união humana e a evangelização.
Ele nem sonhava com o que vinha aí para os dias de hoje, mas era o início de um magistério da Igreja que, ao longo destes últimos 60 anos, revela uma linha contínua de acolhimento e reflexão ética sobre a tecnologia.
Em vez de rejeitar as invenções, os Pontífices procuraram sempre humanizar o progresso.
Analisando o comportamento da Igreja ao longo destes anos no relacionamento com a comunicação social, há coisas comuns entre ambos, lutas comuns e desafios comuns.
Desde logo a proximidade com o público, a clareza e acessibilidade na linguagem, o combate por causas sociais ao lado dos mais frágeis e injustiçados e, sobretudo nos dias de hoje, aquilo a que o Papa Francisco chamou de “Cultura do Encontro”, ou seja, o desafio de utilizar as redes não apenas como ferramentas de difusão, mas como espaços para gerar relações reais, fraternidade e solidariedade, combatendo o ódio e a intolerância.
Com o nascimento da Internet e a massificação da Era Digital, o Papa João Paulo II batizou o ciberespaço como o “Novo Areópago”, classificando a rede como um novo continente geográfico e cultural que a Igreja tinha obrigatoriamente de explorar e habitar.
João Paulo II desafiou mesmo a Igreja a entrar na rede para não ficar isolada do mundo moderno.
Curiosamente, já o Papa Leão XIV, na sua comunicação para o dia de hoje, revela as mesmas preocupações, mas desafia a Igreja a criar espaços para que as pessoas encarem com alguma preocupação e desconfiança a dependência da rede, alertando contra o perigo de “bolhas de isolamento” e relações simuladas por algoritmos.
O aparecimento e a explosão das plataformas sociais (Facebook e Twitter), leva o Papa Bento XVI, em 2013, a focar-se no “eu digital”, defendendo que o ambiente digital não é um mundo paralelo, mas uma extensão da vida real, e advertindo que a busca por “likes” e popularidade digital não deveria comprometer a partilha da verdade.
Na mesma linha de preocupação segue o Papa Francisco, quando em 2024 dedicou a sua mensagem no Dia das Comunicações Sociais ao tema “Inteligência Artificial e Sabedoria do Coração”.
O Papa Francisco insistia num debate ético sobre a Inteligência Artificial na comunicação, focando-se na perda de discernimento, lembrando que os computadores têm capacidade de cálculo, mas falta-lhes a sabedoria espiritual e a compaixão.
E eis que chegamos à mensagem do Papa Leão XIV para este 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, intitulada “Preservar vozes e rostos humanos”, em que apela à humanização da comunicação na era da Inteligência Artificial.
O Papa sublinha a sacralidade do rosto e da voz humana contra a “frieza” dos algoritmos, tornando a comunicação um processo sem coração.
E todos nós – Igreja, Comunicação Social e cidadãos em geral – sabemos o que é exercer a nossa actividade sem coração.
Foram, por isso, muito certeiras as palavras de D. António Marto, no sábado do Senhor Santo Cristo, quando disse que “o nosso mundo actual está a perder o coração”.
Na verdade, como muito bem diz o Papa Leão XIV, “precisamos de preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do homem, à qual devemos orientar também toda a inovação tecnológica”.
Se todos falharmos nesta missão, corremos o risco da tecnologia modificar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana.
Daí que o Papa considere urgente a introdução da alfabetização mediática e em Inteligência Artificial em todos os níveis educativos.
É, também, uma das nossas lutas de hoje, nós homens da comunicação.
Tenho ido a várias escolas de S.Miguel, exactamente para uma conversa sobre literacia dos média e redes sociais, e o que vou vendo é preocupante, porque constato cada vez mais uma geração completamente dependente da rede, sem regras e muitas vezes sem questionar, conformados com aquilo que vêm ou lêem, sem espírito crítico, o que é mais grave. Raramente lêem jornais ou vêem notícias na TV.
Infelizmente, não possuímos estudos nos Açores sobre os hábitos de leitura das gerações mais novas, mas sabemos que mais de 70% das casas açorianas possuem computador e banda larga, o que é um índice excelente (o segundo maior do país), mas todos sabemos, também, que, quando as ferramentas são mal utilizadas, corremos o risco de perdermos os tais valores de que nos alerta a mensagem do Papa neste Dia das Comunicações Sociais.
É raro o jovem que não esteja ligado à rede (96%, segundo os últimos dados). São mais de 7 milhões de portugueses que possuem smartphone e metade deles dizem que é para aceder às redes sociais, única fonte de informação a que recorrem.
Daí que se esteja a consolidar, cada vez mais, gerações de jovens fortemente influenciados pela desinformação, notícias falsas e narrativas de intolerância, ódio e insultos.
As inovações tecnológicas, incluindo a IA, trazem consigo um potencial extraordinário para o desenvolvimento, mas o seu uso nocivo tem de ser combatido na raiz, a começar nas escolas.
Os Açores devem liderar a criação de programas regionais de literacia mediática antes que a esfera pública se degrade ao ponto de fraturar a coesão social, à semelhança do que já acontece em vários países europeus, onde a maioria dos cidadãos vê na desinformação uma ameaça direta à democracia.
Numa era marcada pelo imediatismo e pela replicação viral de notícias falsas, importa lembrar o papel dos meios de comunicação social tradicionais.
Apesar das suas próprias crises financeiras e da falta de recursos, continuam a ser os espaços regulados onde os profissionais estão vinculados a códigos deontológicos, ao rigor e ao compromisso com a verdade factual.
Perante a vertigem digital, impõe-se uma reflexão coletiva séria sobre os caminhos que estamos a trilhar, salvaguardando o dom da comunicação humana para que não nos transformemos numa sociedade acrítica, robotizada e intolerante.
* É jornalista e foi diretor da RTP Açores