
“É esse sonho de um mundo mais justo, de direitos para as mulheres, de direitos para as crianças, de cuidar das crianças pobres, dos trabalhadores. Eu acho que também está tudo mais ou menos escrito desde o Vaticano II, e, mesmo antes, há dois mil anos”, disse Inês Espada Vieira, esta sexta-feira, 24 de abril, em entrevista à Agência Ecclesia.
A partir dos ‘três D’ — Democratizar, Descolonizar e Desenvolver — do programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) após a Revolução de 25 de Abril de 1974, a presidente do CRC salienta que fazer a revolução, “hoje, é continuar a dar voltas”.
“Nós, e nós Igreja também, temos uma responsabilidade de continuar a fazer a revolução.”
Segundo a entrevistada, descolonizar “continua a ser uma palavra atual”, nomeadamente na maneira como se olha para a história, “a história do colonialismo”, para o presente, e, “muitas pessoas”, referem também a necessidade de “descolonizar a linguagem, descolonizar as atitudes coletivas”.
A professora na Universidade Católica Portuguesa (UCP) acrescenta que “não há desenvolvimento sem democracia”, porque tem de ser “um desenvolvimento humano integral”, um desenvolvimento para as pessoas, “para a prosperidade de todos”, que “não significa riqueza económica só”, mas também o espaço da democracia, “e atravessam estes três verbos, e atravessa a construção coletiva, a palavra liberdade”.
Para o padre José Manuel Pereira de Almeida, vice-reitor da UCP, os ‘três D’ não são palavras fechadas no tempo, e a ideia é também compreender Portugal “no meio da conjuntura internacional”, e, na atualidade, “há situações mais preocupantes do que em 1974”, como “a ideia de que a democracia é uma maneira de estar no meio de tantas outras”.
“E com a moda dos totalitarismos, que é para dizer outra forma de declinar a ideia dos ídolos que na tradição bíblica aparecem, a emergir em tantas geografias diferentes, e com a ideia de que o desenvolvimento até pode ser um desenvolvimento a todo o custo, e não este desenvolvimento humano integral, essas palavras têm muito que se lhe diga”, alertou.
Inês Espada Vieira lembrou os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, comemorados no dia 2 de abril, e o debate sobre a revisão constitucional que “em si não é grave”, mas “é grave comentar o passado” como se o pudessem mudar, porque é preciso “olhar para os problemas do presente e agir”.

A presidente do Centro de Reflexão Cristã observa que há pessoas que escolhem não celebrar o 25 de Abril “de uma maneira especial”, o que também está certo, enquanto “o que não está certo é excluir, é ofender, é ser violento, é procurar a agressão fácil”.
“Sair amanhã à rua, quer em Lisboa, na Avenida da Liberdade, quer noutros locais do país, é justamente uma escolha. É uma escolha dessa liberdade; que não significa que quem não vá esteja excluído”, desenvolveu a docente universitária no Programa ECCLESIA, transmitido hoje, na RTP2.
Os dois entrevistados comentaram também as leituras que vão ser proclamadas nas Eucaristias dominicais, quando a Igreja Católica celebra o Domingo do Bom Pastor, o Dia Mundial de Oração pelas Vocações (26 de abril).
“O encontrar pastagem é esse horizonte mais vasto de liberdade em que nós esperamos que também sejamos pessoas, homens e mulheres, capazes de fazer com que a nossa vida seja dada à maneira de Jesus, como nos é proposto no Evangelho”, salientou o padre José Manuel Pereira de Almeida, que encontra também palavras de liberdade “através da porta”, que é Jesus.
(Com Ecclesia)