
A Secretaria-Geral do Sínodo publicou hoje a primeira parte do relatório sobre os critérios de seleção de candidatos ao episcopado, exigindo que o processo seja um “momento de autêntico discernimento eclesial” e promova a escuta ativa da comunidade.
O documento, da autoria do Grupo de Estudo n.º 7, propõe o alargamento da consulta aos leigos e consagrados e defende que o perfil do bispo exige, no atual contexto, “competências sinodais”.
O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, assinalou a importância destas conclusões na governação da Igreja.
“A escolha de um bispo é um momento de autêntico discernimento da comunidade cristã: não existe pastor sem rebanho, nem rebanho sem pastor. O segundo nos oferece instrumentos concretos para enfrentar as questões mais difíceis sem fugir da complexidade: ouvir as pessoas envolvidas, ler a realidade, reunir os conhecimentos. É o método sinodal aplicado às situações mais exigentes”, refere, em nota enviada aos jornalistas.
O novo relatório alerta que a escolha de um bispo deve envolver a Igreja local, os bispos da região e o núncio apostólico, que, segundo o documento, também “deve ele próprio possuir um perfil sinodal e missionário”.
O texto do Grupo 7 estabelece que, perto do momento da sucessão episcopal, as dioceses devem ativar procedimentos internos de consulta.
O bispo cessante tem o dever de convocar “o Conselho Presbiteral e o Conselho Pastoral Diocesano”, pedindo aos seus membros que transmitam, “em envelope fechado, os nomes dos presbíteros que consideram aptos para o episcopado”.
A inovação proposta passa por alargar esta auscultação, “sempre que possível”, a outros órgãos locais.
Entre as qualidades que um futuro bispo deve demonstrar, o grupo de trabalho sublinha a “capacidade de construir comunhão, exercício do diálogo, conhecimento profundo das culturas locais e disponibilidade para se integrar nelas de forma construtiva”.
O relatório aborda a responsabilidade dos dicastérios do Vaticano, exigindo que a Cúria Romana reveja “os seus próprios procedimentos no sentido de torná-los mais sinodais”.
O documento propõe ainda “formas periódicas de avaliação independente dos processos de seleção”, para garantir a transparência das nomeações episcopais.
Os grupos de estudo foram instituídos por mandato do Papa Francisco, no início de 2024, no período que mediou as duas sessões da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema da sinodalidade.
A decisão confiou a peritos de todos os continentes uma série de questões com implicações teológicas, pastorais e jurídicas complexas, para um maior aprofundamento.
Leão XIV determinou que estes relatórios finais sejam tornados públicos de forma progressiva, numa iniciativa que se iniciou a 3 de março.
Nova reunião em junho
O secretário-geral do Sínodo anunciou a convocação dos presidentes dos organismos episcopais dos vários continentes para uma reunião em junho, no Vaticano, visando a avaliação das reformas sinodais em todas as dioceses.
“Vamos reunir-nos para encontrar, ou melhor, para procurar os caminhos, os meios para que os frutos do Sínodo possam ser implementados no terreno, ou seja, na Igreja particular, na diocese”, disse o cardeal Mario Grech, numa entrevista conjunta à Agência Ecclesia e Rede Sinodal nacional.
O encontro, que antecede o segundo consistório do pontificado, agendado para os dias 26 e 27 de junho, reunirá os responsáveis da África e Madagáscar (SECAM), América Latina e Caraíbas (CELAM), América do Norte (EUA/Canadá), Ásia (FABC), Europa (CCEE), Médio Oriente (com a contribuição das Igrejas Católicas orientais) e Oceânia (FCBCO).
O responsável admitiu que as soluções “concretas” para cada território podem variar, mas deixou um alerta: “Não queremos que a diversidade comprometa a unidade, é uma preocupação que faz parte da vida da Igreja”.
“Todos, todos podem contribuir para uma melhor compreensão do significado da sinodalidade sem transgredir a doutrina da Igreja”, acrescentou.
Questionado sobre o percurso realizado desde a aprovação do documento final da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2024, o cardeal Grech falou num caminho “muito positivo”.
“Há um movimento na Igreja em toda a parte, não igualmente em todas as partes, mas agradecemos ao Senhor o grande interesse. E estou a falar de participação geral, isto é, de todos na Igreja, isto é, de todo o povo de Deus”, precisou.
O colaborador do Papa assinalou a necessidade de adaptação às transformações sociais contemporâneas, seguindo a linha de pensamento do atual pontífice.
“Hoje temos necessidade de encontrar novos modos, linguagem nova, de conhecer as novas realidades para anunciar Jesus ao mundo de hoje. E esta é uma necessidade não apenas para vós, mas para todos, como sublinha também o Papa Leão XIV”, indicou.
O balanço da fase atual do Sínodo revela uma adesão transversal dos batizados, que o responsável maltês classifica como uma mudança na consciência sobre a responsabilidade comunitária.
“Os batizados, uma vez que entenderam, ou entendem, o que significa a sinodalidade, apresentam-se e querem participar na missão da Igreja”, assinalou.
O cardeal Mario Grech destacou as dinâmicas de base e as redes sinodais como contributos para a vitalidade da “Igreja universal”, instando à continuidade do trabalho nas comunidades católicas.
O secretário-geral do Sínodo exortou os fiéis a manterem uma postura de abertura às mudanças estruturais necessárias, independentemente das dificuldades de implementação.
“Abri o vosso coração, a vossa mente ao Espírito Santo, que sabe também fazer surpresas”, apelou.
A fase de aplicação das indicações do Sínodo sobre a sinodalidade (2021-2024) decorre em várias fases, que culminam na realização de uma inédita Assembleia Eclesial, marcada para 2028.
Até dezembro de 2026, estão previstos percursos de implementação nas Igrejas locais e nos seus agrupamentos; no primeiro semestre de 2027 devem acontecer assembleias de avaliação nas dioceses, a que se seguem, no segundo semestre, assembleias de avaliação nas Conferências Episcopais nacionais e internacionais.
Para o primeiro quadrimestre de 2028 vão ser marcadas assembleias continentais de avaliação.
“Esperamos que estas assembleias ajudem toda a Igreja a compreender as diversas situações concretas e a aprender uns com os outros”, desejou o secretário-geral do Sínodo.
(Com Ecclesia)