“A Eucaristia exige que a Igreja se torne pão partido para os pobres, vinho derramado em serviço gratuito e amoroso, mesa aberta a todos os que têm fome de Deus e de justiça”- D. Armando Esteves Domingues

Bispo de Angra desafia fiéis a construir uma cidade de fraternidade e justiça

Foto: Igreja Açores/RH

O bispo de Angra afirmou esta tarde, na Sé Catedral, que a Eucaristia não pode ficar encerrada dentro das igrejas, mas deve transformar os cristãos em sinais vivos de comunhão, justiça e serviço no mundo.

Na homilia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, D. Armando Esteves Domingues apelou à construção de uma sociedade mais humana e fraterna, alertando para os riscos da desumanização e da “idolatria do lucro” que sacrifica os mais frágeis e coloca o poder, o lucro ou a tecnologia acima da pessoa humana.

O prelado diocesano estabeleceu uma ponte entre a celebração do Corpo de Deus e os desafios contemporâneos, evocando a recente encíclica Magnifica Humanidade, do Papa Leão XIV, sobre a inteligência artificial e a dignidade humana.

Referindo-se à imagem bíblica da Torre de Babel, que procurou construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio, contrapondo-lhe o exemplo da reconstrução de Jerusalém por Neemias como modelo de uma comunidade edificada sobre a justiça e a fraternidade, lançou uma interpelação direta aos fieis que vieram de todas as paróquias da ouvidoria de Angra: “Hoje, vamos ser enviados às ruas e pessoas da nossa cidade. Que cidade queremos? Uma Babel dos poderosos ou uma cidade reconstruída nos valores perenes da fraternidade e da justiça, uma cidade construída por todos?”.

“A Procissão do Santíssimo é também o olhar de Deus sobre a cidade dos homens, o mundo que habitamos de que a Eucaristia é modelo. Na Missa, Cristo reúne-nos. Na Procissão, Cristo envia-nos. Na Missa, Ele faz-Se pão. Na Procissão, leva esse pão pelas ruas, pelas casas, pela vida concreta das pessoas”, enfatizou, salientando que nesta manifestação de fé pelas ruas da cidade “Cristo passa pelas estradas humanas, pelas alegrias e feridas das famílias, pelas preocupações do trabalho, pelas doenças escondidas, pelas solidões silenciosas, pelas guerras, injustiças, pobrezas e cansaços do nosso tempo”.

“Aquele que adoramos no altar não quer ficar fechado na igreja; quer caminhar com a humanidade”, declarou, acrescentando que a procissão é um testemunho público de fé e uma proclamação de que Deus continua presente na vida concreta das pessoas.

“Não levamos apenas a hóstia consagrada pelas ruas. Somos chamados a levar a lógica da Eucaristia que diz: Deus ama este mundo”, afirmou.

Ao refletir sobre as leituras da solenidade, o prelado diocesano destacou a continuidade entre o maná oferecido ao povo de Israel no deserto e a Eucaristia, apresentada por Jesus como o verdadeiro pão descido do Céu.

“A antiga dádiva torna-se agora presença pessoal: não é apenas um alimento de Deus, mas o próprio Deus dado em alimento”, afirmou.

O bispo insistiu que a Eucaristia é simultaneamente presença real de Cristo e fonte da unidade da Igreja. Citando São Paulo, lembrou que “nós, sendo muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um só pão”, acrescentando que a comunhão eucarística deve traduzir-se numa Igreja capaz de ser “pão partido para os pobres” e sinal de esperança para os que mais sofrem.

“Recebemos o Corpo de Cristo para quê? Para sermos Corpo de Cristo! A comunhão eucarística constrói uma comunhão eclesial chamada a continuar, na caridade, a própria vida do Senhor”, disse, prosseguindo:  “A Eucaristia exige que a Igreja se torne pão partido para os pobres, vinho derramado em serviço gratuito e amoroso, mesa aberta a todos os que têm fome de Deus e de justiça”

“Cada celebração eucarística é, assim, um duplo nascimento: nasce de novo a presença sacramental de Cristo, e nasce de novo a sua Igreja, chamada a viver aquilo que recebe. Esta consciência atravessa os séculos: não se pode comungar verdadeiramente Cristo sem se deixar transformar em comunhão com os irmãos, sobretudo com os mais frágeis”.

Após a Eucaristia, a procissão do Santíssimo Sacramento percorreu a baixa de Angra do Heroísmo, reunindo todas as irmandades, confrarias e paróquias da Ouvidoria de Angra, numa das mais expressivas manifestações públicas de fé da Igreja açoriana.

Em toda a Igreja diocesana hoje saíram à rua várias procissões, umas de ouvidorias, outras de unidades pastorais, outras de paróquia a onde em muitas delas centenas de crianças da catequese celebraram a sua primeira comunhão.

 

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