As feridas do mundo também atingem a Igreja e por isso é necessário “purificar” para depois “fortalecer”, como sugeriu o Papa Francisco, afirmam

O regresso a uma Igreja samaritana, proposto pelo Papa Francisco e assente numa ética do cuidado, da escuta e da misericórdia, poderá constituir uma resposta concreta às grandes feridas da sociedade e da própria Igreja. Mas essa renovação exige que a comunidade cristã tenha como referência o Cristo sofredor, presente no rosto dos pobres e dos mais vulneráveis. Esta foi a principal conclusão das Jornadas da ATIEM – Associação de Teólogos Ibéricos para o Estudo da Moral –, que decorreram nos últimos dois dias, em Ponta Delgada, sob o tema “O caminhar da Teologia Moral do Papa Francisco: azeite e vinho sobre as feridas do mundo”.
Durante dois dias, padres e leigos teólogos, incluindo pela primeira vez sacerdotes diocesanos dos Açores, refletiram sobre os desafios éticos da atualidade e o legado do Papa Francisco, apontando caminhos para uma Igreja mais próxima das pessoas, mais sinodal e comprometida com a cura das feridas provocadas pelos abusos, pela discriminação de género, pelos extremismos e pela polarização.
O encontro decorreu em formato de laboratório de reflexão, procurando identificar os desafios e as perspetivas abertas pela Teologia Moral proposta por Francisco nos seus principais documentos. Embora sem conclusões formalmente aprovadas, os participantes convergiram na necessidade de uma Teologia Moral que ultrapasse uma lógica meramente normativa para privilegiar o acompanhamento, o discernimento e a proximidade, à imagem do Bom Samaritano.
Para o padre Jorge Cunha, professor catedrático da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e presidente da direção da ATIEM, o Papa Francisco deixou um património teológico que a Igreja deve preservar.
“Eu gostava de dizer que o Papa Francisco, não sendo já o Papa da Igreja, lançou as bases de um crescimento e de uma forma de fazer Teologia Moral e de exprimir as exigências éticas da fé de uma forma absolutamente inovadora. Nós hoje temos outro mestre e outra forma de estar, mas o Papa Francisco lançou as bases de uma coisa nova que não podemos deixar perder”, afirmou.
O teólogo sustentou ainda que a credibilidade da Igreja nunca dependeu do seu poder institucional, mas da sua identificação com os mais vulneráveis. Apesar da crise provocada pelos abusos sexuais, defendeu que a missão da Igreja permanece intacta.
“O Cristo continua a ser salvador, mesmo quando a Igreja é infiel”, afirmou, considerando que a crise dos abusos representa também “uma crise de crescimento ético da humanidade”. Para Jorge Cunha, a Igreja deve reconhecer os seus erros com humildade, despojar-se de qualquer lógica de poder e identificar-se com “Cristo vulnerável”.
O presidente da ATIEM alertou igualmente para o que designou como uma “crise de visibilismo”, defendendo que a Igreja deve recentrar a sua identidade na discrição do serviço.
“Temos de nos converter à invisibilidade, à força do rosto vivo e não do cadáver que muitas vezes aparentamos”, afirmou, acrescentando que a verdadeira presença da Igreja se manifesta “no rosto do pobre e do vulnerável”, mais do que nos sinais exteriores de poder ou de prestígio.
Também o padre Roberto Noriega, professor da Faculdade de Teologia de Deusto, em Bilbau, e secretário da direção da ATIEM, considerou que a imagem do azeite e do vinho retirada da parábola do Bom Samaritano sintetiza a missão da Teologia Moral.
“Primeiro temos de purificar, depois fortalecer”, explicou, defendendo que cada pessoa exige uma resposta própria às suas feridas.
Entre os principais desafios identificados destacou a polarização social, os maus-tratos às mulheres e às crianças e os abusos, sublinhando que “a primeira coisa que temos de fazer é escutar”. Para o sacerdote espanhol, não existem soluções universais: “Cada pessoa sente a sua dor de maneira diferente e nós temos de nos ajustar a isso”. O acompanhamento, acrescentou, exige proximidade, escuta e tempo, porque “as feridas não se fecham de um dia para o outro”.
Já o padre José Júlio Rocha, teólogo moralista e antigo professor do Seminário de Angra, defendeu que a renovação da Igreja passa por uma profunda mudança de paradigma, considerando que o clericalismo continua a ser um dos principais obstáculos à reforma eclesial.
“Precisamos mudar de paradigma, porque ainda somos uma Igreja espantosamente clerical”, afirmou, defendendo que a sinodalidade promovida pelo Papa Francisco representa um regresso à experiência da Igreja primitiva e à visão do Concílio Vaticano II.
Segundo José Júlio Rocha, o trabalho desenvolvido nas jornadas constituiu um espaço de reflexão livre, sem caráter magisterial, mas indispensável para pensar os desafios da Igreja contemporânea. Na sua perspetiva, é necessária “uma viragem copernicana da Eclesiologia e também da Moral”, apesar da natural lentidão das mudanças numa instituição com dois mil anos de história.
No encerramento das jornadas, os três intervenientes convergiram na ideia de que o legado moral do Papa Francisco permanece atual. Jorge Cunha defendeu que o pontífice lançou as bases de uma forma inovadora de fazer Teologia Moral, enquanto Roberto Noriega apelou ao trabalho conjunto de padres, leigos e bispos na construção do bem comum e do Reino de Deus.
As Jornadas da ATIEM realizam-se de dois em dois anos. O programa termina esta noite com uma conferência aberta ao público, subordinada ao tema “Açores: a Igreja no centro do Mundo”, que terá lugar às 20h30, no coro alto da Igreja de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada.
Ponta Delgada acolhe Encontro da Associação Ibérica de Teólogos Moralistas




