D. Armando Esteves Domingues presidiu ao “último e derradeiro envio missionário” de um dos filhos mais ilustres da diocese de Angra ao permitir que os restos mortais do primeiro bispo de Dili fossem transladados para Timor. Autoridades timorenses referem um ato de justiça, gratidão e afirmação da identidade nacional

A Diocese de Angra viveu esta quarta-feira um dos momentos mais simbólicos da sua história missionária ao entregar os restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart aos representantes de Timor-Leste, num gesto que o bispo de Angra qualificou como “o último e derradeiro envio missionário” de um dos seus bispos.
Na homilia da Eucaristia de ação de graças, celebrada na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Horta, D. Armando Esteves Domingues afirmou que a Igreja açoriana compreende que, embora D. Jaime seja um “filho da terra” e motivo de orgulho para a Diocese de Angra e para a sua família, “a sua vida, a sua obra e o seu sacrifício foram maiormente entregues ao povo de Timor”.
“Reconhecemos que ele pertence àqueles a quem serviu”, afirmou o prelado, lembrando que o antigo bispo não foi “um administrador de passagem”, mas um pastor que marcou profundamente a Igreja timorense, ao ponto de, quase três décadas após a sua morte e já num país independente, o povo continuar a desejar tê-lo “de volta para repousar no seu solo e entre os seus timorenses que muito ainda o amam”.
Para D. Armando Esteves Domingues, a trasladação dos restos mortais do primeiro bispo de Díli constitui um acontecimento de enorme significado histórico e espiritual, promovido conjuntamente pela Conferência Episcopal Timorense, pela Presidência da República e pelo Governo de Timor-Leste, com o parecer favorável do Conselho Presbiteral da Diocese de Angra e da família de D. Jaime Garcia Goulart.
O bispo destacou que, para a Igreja e para o Estado timorense, que assumiu os custos da operação, o regresso do antigo prelado representa “um ato de justiça histórica, de gratidão e um momento importante para a consolidação da identidade nacional”.
Na homilia, D. Armando Esteves Domingues traçou o percurso daquele que considerou um dos maiores missionários açorianos do século XX. Nascido na Candelária, ilha do Pico, em 1908, Jaime Garcia Goulart partiu para Macau com apenas 13 anos, integrou depois a missão de Timor, onde permaneceu durante 33 anos, foi administrador apostólico durante a ocupação japonesa e tornou-se, em 1945, o primeiro bispo da recém-criada Diocese de Díli.
O prelado recordou, ainda, que D. Jaime Goulart recusou abandonar inicialmente o território durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu agressões por defender as populações e arriscou a própria vida para proteger militares aliados, partilhando o sofrimento do povo timorense.
Terminada a guerra, dedicou-se à reconstrução da Igreja local, promovendo a formação do clero, a criação de escolas missionárias e o desenvolvimento da assistência social. Entre as obras mais marcantes destacou a fundação do Seminário de Nossa Senhora de Fátima, em Soibada, considerado a origem de grande parte do clero timorense e das futuras lideranças do país.
“Não foi apenas o primeiro bispo; foi o arquiteto da Igreja timorense moderna”, afirmou D. Armando, acrescentando que D. Jaime se tornou um verdadeiro símbolo da identidade nacional de Timor-Leste.
Ao mesmo tempo, o bispo enquadrou D. Jaime Garcia Goulart na extraordinária tradição missionária dos Açores, recordando a geração de bispos açorianos enviados para o Oriente ao longo do século XX, particularmente oriundos da ilha do Pico, cuja formação no Seminário de Angra alimentou as missões de Macau, Goa, Timor e outras dioceses asiáticas.
Na parte final da homilia, o bispo de Angra convidou os presentes a olhar para a vida de D. Jaime Goulart à luz da esperança cristã, afirmando que “a vida não acaba, apenas se transforma”, e apresentou o antigo missionário como exemplo de uma existência inteiramente oferecida a Deus e ao próximo.
“O olhar na eternidade que moveu o apóstolo e missionário D. Jaime continua a ser luz na história presente e futura em terras do Sol Nascente e estímulo para nós”, afirmou, sublinhando que cada cristão é chamado a viver a sua missão, embora alguns sejam convidados a “deixar tudo e partir”.
D. Armando Esteves Domingues salientou ainda o fortalecimento da “união espiritual inquebrável” entre as dioceses de Angra e Díli, e entre dois povos insulares que partilham a língua, a fé e uma longa história de comunhão.
Na cerimónia de hoje estiveram presentes dois sacerdotes timorenses e representantes da embaixada de Timor em Portugal, bem como autoridades civis e militares da Horta e família do prelado. A celebração terminou com um rito próprio dos funerais timorenses.
Numa nota, a Conferência Episcopal Timorense e o Governo de Timor-Leste sublinham que a presença dos seus restos mortais na Catedral da Imaculada Conceição “constituirá um testemunho perene da missão evangelizadora da Igreja em Timor-Leste e uma forma duradoura de honrar a memória daqueles que consagraram as suas vidas ao serviço de Deus e do povo timorense”.
O pedido de transladação apresentado pelas autoridades timorenses foi apreciado na última reunião do Conselho Presbiteral da Diocese de Angra, realizada em fevereiro, tendo sido decidido que os restos mortais de D. Jaime Garcia Goulart seriam acompanhados por um cálice e pela batina do antigo bispo, peças preservadas na Paróquia de São José, em Ponta Delgada e que constituem importantes símbolos do seu ministério episcopal.






