Diretor do ICC agraciado pelo município de Ponta Delgada com a medalha de ouro da cidade, proferiu conferência inaugural das Festas do Espirito Santo, organizadas pela autarquia

A piedade popular é a expressão da força do povo, deve estar representada nas decisões pastorais da Igreja e só é autêntica quando se traduz no cuidado pelos mais pobres. Estas foram as três grandes conclusões apresentadas por Monsenhor José Constância na conferência inaugural da XXIII edição das Grandes Festas do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada, que decorreu na noite de quinta-feira, na Igreja Matriz de São Sebastião, num sarau que terminou com a atuação da Sinfonietta de Ponta Delgada, que estreou a obra “Eis o Dom do Espírito”, Cantata para o Espírito Santo, da autoria de Ana Paula Andrade.
Partindo do tema “A piedade popular açoriana com destaque para o culto ao Divino Espírito Santo: memórias, constatações e convicções pastorais”, o sacerdote defendeu que a devoção ao Divino continua a ser uma das mais fortes expressões da identidade religiosa e cultural dos Açores, num tempo em que a Igreja é chamada a responder às profundas mudanças da sociedade.
A primeira grande conclusão da conferência incidiu sobre a própria natureza da piedade popular. Para o presbítero da diocese de Angra, que é diretor do Instituto Católico de Cultura, “a piedade popular, nas suas diferentes formulações, expressa a força do povo”. Acrescentou que “sem povo não há política, cultura, religião nem fé”, considerando que é precisamente nestas manifestações que se revela e amadurece o sentido da fé vivido por todo o povo de Deus.
A segunda conclusão traduziu-se num apelo concreto à Igreja. Embora organizada pelo povo e pelos mordomos, a piedade popular é, afirmou, “sempre caminho para o Evangelho”. Por isso, defendeu que os Conselhos Pastorais devem integrar representantes da piedade popular, reconhecendo o contributo de quem, há gerações, mantém vivas as tradições religiosas e comunitárias das ilhas.
A terceira conclusão incidiu sobre a dimensão social da devoção. Monsenhor José Constância sustentou que a piedade popular só é completa quando conduz à conversão pessoal e comunitária e se traduz em gestos concretos de solidariedade.
“Enquanto houver fome, as missas que se celebram na Igreja não estão completas”, afirmou, acrescentando que “uma piedade popular que não cuide dos pobres está incompleta”.
Ao longo da conferência, alertou ainda para a necessidade de investir na formação cristã dos agentes envolvidos nestas manifestações religiosas, advertindo que a piedade popular “não pode ser um trampolim para alcançar títulos”, mas deve permanecer uma escola de fé, serviço e comunhão.
O conferencista destacou igualmente o culto ao Divino Espírito Santo como elemento agregador de todas as ilhas açorianas, sublinhando o protagonismo dos leigos, das mordomias e das coroações na preservação de uma tradição que continua a unir gerações e comunidades, incluindo os emigrantes.
Monsenhor Constância sublinhou que a identidade dos Açores assenta numa matriz profundamente cristã, recordando que o povoamento das ilhas esteve ligado à Ordem de Cristo e à ação evangelizadora dos franciscanos. Defendeu que essa herança continua viva através da Diocese de Angra, expressão da Igreja local, cuja autonomia pastoral, afirmou, constitui uma riqueza sempre vivida em comunhão com Roma. Citando D. António de Sousa Braga, lembrou que “a Igreja não é uma multinacional espalhada pelo mundo, mas uma realidade local, encarnada em cada lugar a partir de Cristo”. Para o conferencista, também a piedade popular encontra na Igreja local a sua referência, sendo uma das expressões mais genuínas da fé açoriana, marcada pela devoção ao Cristo sofredor e ao Cristo misericordioso.
Na parte final da conferência, deixou dois desafios para o futuro da Igreja açoriana. O primeiro consiste na realização de um grande encontro entre a Igreja e a sociedade açoriana para refletir sobre o desenvolvimento da Região e as virtudes da autonomia, inspirando-se na experiência de autonomia eclesial vivida pela Diocese de Angra. O segundo passa pela realização de um Sínodo Diocesano, que considerou essencial para reforçar a formação dos fiéis, aprofundar a vivência da sinodalidade e promover uma renovação da piedade popular, tornando-a cada vez mais enraizada no Evangelho e comprometida com a missão da Igreja.
No encerramento da sessão, o Presidente da Câmara de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral reiterou uma ideia já defendida pelo conferencista de que “o Espírito Santo é do povo” e afirmou que, desde o povoamento das ilhas até aos nossos dias, a fé em Deus e a devoção ao Divino constituem um dos principais elementos de união dos açorianos. Recordou ainda que as Festas do Divino são “festas do povo, feitas pelo povo e para o povo”, desejando que o Espírito Santo continue a iluminar todos os que assumem responsabilidades ao serviço da comunidade.
A XXIII edição das Grandes Festas do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada procura reunir sempre todas as mordomias do concelho, envolvendo este ano cerca de 90 coroas e uma centena de bandeiras.
O programa prossegue esta sexta-feira com a cerimónia da Mudança da Bandeira e a abertura do Quarto do Espírito Santo, no salão nobre dos Paços do Concelho. No sábado serão servidas Sopas do Espírito Santo para cerca de 12 mil pessoas, no Campo de São Francisco, seguindo-se o desfile alegórico, que contará com 24 carros de bois e 30 carros alegóricos. Ao final da tarde será recitado o terço no Quarto do Espírito Santo.
As celebrações culminam no domingo com a Missa da Coroação, às 9h30, na Igreja Matriz de São Sebastião, seguida, durante a tarde, do tradicional Desfile da Coroação, que reúne as mordomias de todo o concelho de Ponta Delgada.





