A alegria sem verniz

Porta voz da Diocese de Angra, Pe Marco Gomes, sublinha a simplicidade de um Papa que “sabe que não é dono de si mas que se sabe escolhido”.

Lembro o instante do fumo branco mas recordo melhor ainda o estremecimento que me assaltou aquando do anúncio solene “habemus papam” e é o jesuíta Bergoglio que escolheu o nome Francisco para o seu pontificado, faz hoje um ano.

 

Esta profunda comoção tem algumas razões que me são conhecidas. Antes de mais Francisco de Assis, figura ímpar do segundo milénio e notável discípulo de Jesus.

 

Mandei logo uma sms ao meu sobrinho Francisco a dar-lhe conta que agora tinha um papa homónimo. E telefonei ao meu pai António, para trocarmos impressões acerca deste novo papa “vindo de longe”. Pelo auscultador percebi que o ruído de fundo dos diretos da televisão não podia abafar o seu choro de emoção.

 

E pensei, cá para comigo: Uau! É que nunca pensei que a Igreja chegasse tão depressa a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser.

 

Estes três últimos pontífices são todos não romanos, um de Leste (polaco), outro Bávaro (Alemão) e este Sul-americano (Argentino). A compará-los com a pessoa de Jesus de Nazaré que nos é apresentada em tríptico nos sinópticos, reconheço em João Paulo II traços do Jesus do evangelho segundo Lucas: um pastor rico em misericórdia; identifico em Bento XVI um mestre de justiça ilustrado no evangelho segundo Mateus; e não posso não deixar de colar a figura de Francisco ao caminhante do evangelho segundo Marcos.

 

Francisco não é poliglota mas os seus gestos falam. Francisco inventa palavras para nos dizer coisas que calam fundo. Francisco não tem verniz porque prefere cheirar a ovelha. Francisco tem o calçado enlameado dessa argamassa de que somos nós feitos. Francisco quebra a redoma de vidro e vai percorrendo a distância que separa a Igreja das pessoas reais. Francisco arruma a casa e exige a padres, bispos, funcionários e leigos apenas uma coisa: autenticidade. Francisco recebe, acolhe, vai, fala, pensa, dispensa, despede e é alegre.

 

Um homem frágil que não é senhor de si mas que se sabe escolhido.

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