A despedida de Dom Jaime Garcia Goulart

Por Monsenhor António Manuel Saldanha

Foto: Igreja Açores/AMS

A igreja do Carmo, panteão da Horta e centro da devoção católica a Nossa Senhora nestas ilhas do Faial e do Pico, foi o espaço para a celebração da Missa de Requiem pelo Senhor Dom Jaime Garcia Goulart, último bispo de Timor natural dos Açores.

A relevância do acto foi bem patente com a presidência do Senhor Dom Armando Esteves Rodrigues, Bispo de Angra e com a participação da Ordem Terceira do Carmo que está nestes dias a preparar a festa da sua padroeira, das Confrarias do Santíssimo Sacramento da Conceição e da Matriz e do seu Grupo coral. A presença de dois sacerdotes das dioceses de Timor, do Encarregado de Negócios da Embaixada de Timor em Lisboa, das autoridades civis e militares com sede na Horta, confirmou que se viveu um momento histórico.

Num ritual nunca antes realizado nesta ilha, um grupo de jovens timorenses com trajes próprios, após a celebração da Eucaristia, efetuou uma delicada dança em torno dos restos mortais de Dom Jaime e ouviram-se discursos em português e em língua própria de Timor, salientando a grandeza humana e espiritual de um dos maiores missionários da história das missões portuguesas.

Tratou-se de uma despedida definitiva. Honrando a sua vontade, os restos mortais de Dom Jaime Goulart foram entregues a Timor, lugar onde este Bispo exerceu o seu ministério sacerdotal e episcopal com uma fé e energia raras.

Talvez já coberta com o pó do tempo, reavivou-se na igreja do Carmo, a memória dos dois últimos séculos da história dos Açores, cuja Igreja diocesana inspirou centenas de jovens a rumarem para o então misterioso e longínquo Oriente e para a Oceânia como missionários. Macau e Dili constituíram-se então como portos de chegada da língua, cultura e religião então identitárias do povo português.

Os séculos XVI e XVII viram o Padroado Português consolidar-se com a multiplicação das Missões jesuítas, franciscanas e dominicanas, em terras tão díspares como eram os atuais Paraguai e Uruguai, os territórios de Goa e os Impérios do Meio e do Sol Nascente.

Com o declínio dessas Missões, suprimidas as Ordens Religiosas no Portugal do Liberalismo e mais tarde na I República, retomou-se com o Estado Novo a gramática do Padroado, frequentemente em litígios diplomáticos com a Santa Sé que desde os tempos do Concilio de Trento, criara a Propaganda Fidei que procurava evangelizar territórios que embora, nalguns casos ainda tivessem teoricamente sob a jurisdição do Padroado português, tinham já passado de mãos, sobretudo para as administrações coloniais inglesa ou holandesa.

Consciente do prestigio que dava a Portugal ocupar-se da evangelização de imensos territórios e povos com diferenciadas relevâncias culturais e sociais, tanto a Monarquia liberal como a Primeira República nunca abdicaram dos privilégios derivados do Padroado, mas bem cedo se esqueceram das responsabilidades que este impunha. Assim, igrejas, mosteiros e importantes núcleos populacionais deixaram de ter a assistência económica e espiritual que o Padroado devia garantir.

Teremos que esperar pelo Acordo Missionário assinado entre a Santa Sé e Portugal, como apêndice à Concordata de 1940, para dar novo folgo à antiga vocação portuguesa de evangelizar os territórios sob a sua imediata tutela administrativa.

Os Açores desde logo nos finais do século XIX já se tinham afirmado como terra propícia para gerar gente aventureira tanto na caça à baleia em mares americanos como na corrida ao ouro para os lados da Califórnia, como no envio de jovens para em Macau se formarem para missionários.

O Bispo Dom Jaime Goulart, filho da religiosidade açoriana, não ficou insensível ao apelo de Dom José da Costa Nunes e deixou o Pico para se ordenar padre missionário. Viria a tornar-se um dos melhores frutos de uma ambiência religiosa que se respirou nestas ilhas até praticamente a primeira metade do século XX, quando a mística pelas Missões era fortíssima. Temia-se pelo destino das almas por batizar, lamentava-se a sujeição a ritos estranhos ao cristianismo e superstições frequentemente inibidoras de progresso social e causas de tensões e de medos entre os que acreditavam em poderes ocultos e mágicos aparentemente poderosos.

Quando chegou a Timor, o território, então sob administração colonial portuguesa, era cultural e religiosamente, fortemente marcado por credos religiosos não cristãos. A personalidade marcante e carismática de Dom Jaime fez com que a situação se invertesse de modo que em poucas décadas, passasse o cristianismo a ser a referência ética e espiritual do povo de Timor.

A sua proximidade com o povo de Timor ficou bem evidente durante a ocupação japonesa na II Guerra Mundial, feita de partilha de carências de toda a espécie, luta pela salvaguarda de bens e vidas humanas, de tal modo que a sua integridade física ficou comprometida e teve que se exilar na Austrália de onde regressou logo após o fim do conflito e como Bispo de Dili.

No regresso a Timor, evangelizou e criou estruturas que pudessem auxiliar o povo timorense a progredir até uma independência como a que hoje conhece. Justamente por isso Dom Jaime é considerado um dos pais fundadores da nação de Timor como foi evidenciado pelo representante do seu governo.

Recordo bem as conversas que com ele mantive durante anos quando por aqui passava, durante as quais se evidenciava que a sua saudade de Timor e a sua admiração pelo seu povo eram inextinguíveis.

A celebração no Carmo foi pois, uma homenagem de todo um povo a alguém que hoje, é considerado seu herói nacional e selou definitivamente a união afetiva e religiosa entre as ilhas dos Açores e Timor.

Raramente se pode aplicar com tanta certeza como em Dom Jaime Garcia Goulart o quanto é verdadeiro o salmo que diz que “o justo deixa memória eterna”, o que no dizer de Camões se aplica a quantos “se vão da lei da morte libertando”.

Obrigado povo de Timor por nos recordar a grandeza humana e espiritual de um dos melhores açorianos da sua história de cinco séculos.

*Este artigo foi publicado esta sexta-feira no jornal Tribuna das Ilhas

 

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