Por Carmo Rodeia

Não nasci nos Açores mas considero-me meio açoriana. Vivi metade da minha vida na ilha, sem perder de vista o arquipélago, o que para uma continental, habituada à vasta planície alentejana, até é um exercício fácil e terapêutico: olhar para o mar. Diria mesmo que vivi dias muito felizes nos Açores, onde nasceram os meus três filhos e por mais afastada que esteja da ilha sinto sempre que lá hei de voltar, nem que seja para morrer.

Regresso a Tolentino de Mendonça uma vez mais.

“Vivemos mentalmente a vida como um continuum e encontramos aí o conforto de pensar que somos os mesmos nos mesmos lugares e que, no fundo, os êxodos domésticos da nossa circum-navegação diária, mais turbulenta ou mais pacificada, não nos alteram a nós nem ao mundo que construímos.”

Hoje, ao ler várias notícias sobre as festas do Senhor Santo Cristo voltei a sentir-me em casa. Como se tivesse partido para umas férias grandes, sem fim à vista, e hoje tivesse regressado e aberto as mesmas portas e tivesse encontrado as mesmas pessoas, numa espécie de satisfação de uma necessidade de abrigo qualquer; de amor a um lugar no mundo, procurando no silêncio a hospitalidade de uma palavra e de um olhar.

Nesta sexta feira do Senhor Santo Cristo não desejei a ninguém boas festas pela manhã mas desejei encontrar-me com Ele. Não para lhe pedi qualquer favor ou que me resolva a vida. Olhei para a imagem e vieram-me à memória conversas e cheiros irrepetíveis que só o silêncio do coração pode compreender.

E no coração de cada açoriano, legítimo ou adotado, disperso pelo mundo, há um altar de culto eterno ao Senhor Santo Cristo, onde as suas preces mantêm permanentemente acesas místicas velas de devoção e saudade.

Não sou indiferente a estas festas, nem consigo ficar indiferente perante a imagem do Ecce Homo que percorre as ruas de Ponta Delgada no quinto domingo a seguir à Páscoa.

“A Deus nunca ninguém o viu” diz-nos São João, mas quando se está diante desta imagem ninguém pode ficar da mesma maneira.

Eu cá, pelo menos, não fico… e o espanto será sempre uma doce companhia que me conduzirá até Ele.

É este exercício que procuro fazer diariamente nas minhas novas funções em Fátima, onde encontro um colo sempre disponível para me ajudar.

Há um ano o papa Francisco fez-se peregrino e disse-nos : temos Mãe e aqui em Fátima há um manto de Luz que nos cobre e nos leva até ao Pai. Daqui a uma semana a festa será no feminino. Em Fátima. Embora a trabalhar não me esquecerei do essencial: o coração de nossa Senhora será sempre o refúgio e o caminho que nos conduzirá até Deus.

Afinal Fátima e Ponta Delgada são menos distantes do que parecem.

Boas festas!