Ex reitor da Universidade dos Açores desafia a Igreja a reler o seu papel na sociedade açoriana contemporânea e a recuperar alguma da ousadia

O historiador e antigo reitor da Universidade dos Açores, Avelino Freitas de Meneses, defendeu numa entrevista concedida ao Sítio Igreja Açores que a presença da Igreja Católica foi “estruturante” na construção histórica e identitária do arquipélago, mas deixou também um apelo claro à própria Igreja para que volte a reler o seu papel na sociedade açoriana contemporânea e recupere alguma da ousadia que marcou outros períodos da sua história, como por exemplo na década de 60 e 70.
Numa reflexão marcada pela dimensão histórica, social e cultural da realidade açoriana, o antigo secretário regional da Educação sustentou que “a Igreja acompanhou sempre o povo açoriano nas suas maiores dificuldades e nas suas maiores conquistas”, assumindo um papel que ultrapassa a esfera exclusivamente religiosa e afirmando-se como um dos pilares da vida comunitária açoriana.
Segundo Avelino Freitas de Meneses, a compreensão da história dos Açores “fica incompleta se ignorarmos a influência da Igreja na organização das comunidades, na educação, na assistência social e até na própria afirmação cultural das ilhas”.
“A Igreja ajudou a formar gerações de açorianos. Em muitas localidades, foi durante décadas a principal referência educativa, social e cultural”, afirmou.
Ao longo da conversa, Avelino Freitas de Meneses insistiu também na ideia de que a identidade açoriana foi construída a partir de uma forte matriz comunitária e espiritual.
“O sentimento de pertença dos açorianos também se alimenta de tradições religiosas, de festas populares e de manifestações culturais que nasceram no contexto da vivência cristã”, referiu, apontando as festas do Espírito Santo como uma das maiores expressões da cultura popular açoriana.
O professor recordou que, desde os primeiros séculos do povoamento, a Igreja esteve ligada à criação de paróquias, misericórdias, escolas e estruturas de apoio às populações, contribuindo para a consolidação de uma identidade própria no arquipélago.
Ao abordar os 50 anos da autonomia constitucional dos Açores, que se assinala este ano, o historiador destacou que a Igreja soube adaptar-se às profundas mudanças políticas e sociais ocorridas depois do 25 de Abril e da institucionalização da autonomia regional em 1976.
“A autonomia trouxe novos desafios, novas responsabilidades e também novas oportunidades para os Açores. A Igreja acompanhou esse processo sem se fechar sobre si própria”, afirmou.
Contudo, Avelino Meneses entende que a Igreja atravessa atualmente um tempo particularmente exigente, marcado por um visível enfraquecimento dos seus recursos humanos e materiais, realidade que considera inevitavelmente condicionadora da sua capacidade de intervenção pública e pastoral.
“O problema não é apenas de números; é também de qualidade”, observou, sublinhando que existe hoje “um défice de intervenientes” que limita a capacidade de reflexão e intervenção da Igreja numa sociedade cada vez mais complexa e secularizada.
Apesar disso, o historiador reconheceu o esforço realizado pela Diocese e pelo Seminário ao longo dos últimos anos para manter a formação do clero e investir na qualificação académica de novos sacerdotes, nomeadamente através do envio de estudantes para Roma. Ainda assim, considera que esse investimento enfrenta hoje dificuldades acrescidas perante a redução das vocações e a crescente dispersão de responsabilidades pastorais.
Na entrevista, Avelino Freitas de Meneses referiu que a Igreja já não ocupa o espaço central que durante séculos teve na sociedade açoriana e que o fenómeno religioso passou a disputar atenção com “outros saberes, outras experiências e outras formas de construção do sentido da vida”.
“A Igreja intervém hoje num contexto muito diferente daquele que conheceu durante grande parte da sua história. A secularização alterou profundamente a relação das pessoas com o religioso”, afirmou, acrescentando que isso exige novas formas de presença pública e maior capacidade de diálogo cultural.
Ainda assim, o antigo governante considera que a Igreja mantém uma relevância social importante, sobretudo nas ilhas mais pequenas e junto das comunidades mais vulneráveis, funcionando muitas vezes como “uma presença estabilizadora” perante dificuldades económicas, fenómenos migratórios e transformações sociais profundas.
A entrevista completa com o Ex Reitor da Universidade dos Açores, no contexto da celebração dos 50 anos da autonomia político constitucional dos Açores, em que refletimos sobre o papel da Igreja neste caminho, vai para o ar no próximo domingo, depois do meio-dia, no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.