Açores: Uma Região, Um Destino Comum

Por António Pedro Costa

Foto: António Pedro Costa

 

O Dia dos Açores, celebrado na segunda-feira do Espírito Santo, representa muito mais do que uma simples data do calendário regional. É um símbolo vivo da identidade açoriana, da unidade de um povo espalhado por nove ilhas, mas unido por uma história comum, por uma cultura singular e por um profundo sentimento de pertença a estes rochedos atlânticos. Num tempo em que alguns insistem em alimentar bairrismos doentios — expressão que deveria ser banida dos nossos dicionários — importa relembrar tudo aquilo que nos une enquanto Região Autónoma.

As ilhas açorianas nunca foram iguais entre si, nem precisam de o ser. Cada uma possui as suas tradições, os seus sotaques, as suas paisagens e até as suas formas particulares de viver a açorianidade. Mas esta diversidade nunca foi motivo de fraqueza. Pelo contrário: é precisamente na riqueza das diferenças que os Açores encontram a sua maior força. O erro surge quando as diferenças são usadas para criar divisões artificiais, rivalidades inúteis ou disputas pequenas que em nada beneficiam o futuro coletivo da Região.

Há séculos que existe muito mais a unir os açorianos do que aquilo que os separa. As festas do Divino Espírito Santo são talvez o maior exemplo dessa realidade. Celebradas em todas as ilhas, constituem um dos mais importantes polos congregadores da alma açoriana. Independentemente da ilha onde se viva, os valores do Espírito Santo, como a partilha, a solidariedade, a fraternidade e a igualdade entre todos, fazem parte da essência do povo açoriano. A coroação, as sopas do Espírito Santo e o culto popular unem gerações e aproximam comunidades inteiras num sentimento comum de fé e de pertença.

Não é por acaso que o Dia dos Açores se celebra precisamente na segunda-feira do Espírito Santo. A escolha desta data simboliza uma identidade coletiva construída na solidariedade e no sentido comunitário. Os açorianos aprenderam, ao longo da sua história, que apenas unidos conseguem ultrapassar as dificuldades impostas pelo isolamento geográfico e pela dureza da natureza.

A natureza, aliás, tanto é mãe generosa como madrasta severa em todas as ilhas. Em cada recanto do arquipélago encontramos paisagens de uma beleza extraordinária, com lagoas vulcânicas, montanhas imponentes, fajãs deslumbrantes, campos verdes e um mar infinito que molda a nossa existência. São cenários que orgulham todos os açorianos e que pertencem igualmente a todas as ilhas. Mas essa mesma natureza também nos recorda constantemente a fragilidade da condição humana.

Os vulcões, os sismos e as intempéries fazem parte da memória coletiva açoriana. Estas ilhas não escaparam às marcas deixadas pelos terramotos ou pelas erupções vulcânicas. Em momentos de tragédia, nunca foram os bairrismos que salvaram vidas ou reconstruíram comunidades. Foi sempre a solidariedade entre açorianos, o auxílio mútuo e a capacidade de união perante a adversidade. Quando uma ilha sofre, todas as outras sentem essa dor como sua. Essa consciência coletiva é uma das maiores riquezas dos Açores.

Também a História demonstra claramente aquilo que nos une enquanto povo. Portugal sempre esteve presente nos Açores. Basta recordar o papel heroico da ilha Terceira, que nunca se rendeu ao domínio espanhol durante a crise da sucessão de 1580. A resistência terceirense tornou-se símbolo da fidelidade açoriana à independência portuguesa e da coragem de um povo habituado a enfrentar desafios difíceis. Essa herança histórica não pertence apenas à Terceira, pertence a todos os açorianos e a todos os portugueses.

Ao longo dos séculos, os Açores afirmaram-se como uma terra profundamente ligada a Portugal, mas simultaneamente orgulhosa da sua autonomia, da sua cultura própria e da sua especificidade atlântica. A autonomia conquistada após o 25 de Abril representa uma das maiores realizações políticas da história açoriana. Graças à autonomia democrática, os açorianos passaram a governar-se a si próprios, a decidir sobre o seu desenvolvimento e a construir soluções adequadas à realidade insular.

Temos hoje um Governo Regional comum, uma Assembleia Legislativa comum, uma democracia comum, uma bandeira e um hino que respeitamos e reverenciamos. Estes símbolos não pertencem a uma ilha apenas, pertencem a todos. São marcas da nossa unidade política e institucional enquanto Região Autónoma.

Mas a verdadeira unidade não se constrói apenas através das instituições. Constrói-se sobretudo através da cultura partilhada, da memória coletiva e dos valores comuns. A cultura açoriana manifesta-se na música, na literatura, nas tradições religiosas, nas festas populares, na gastronomia, na relação íntima com o mar e na forma de estar simples e solidária das nossas gentes. Apesar das particularidades de cada ilha, existe uma identidade açoriana inconfundível que atravessa todo o arquipélago.

Ao celebrar o Dia dos Açores, é importante olhar para o futuro com espírito construtivo. Ainda há muito por fazer. A nova autonomia democrática e financeira abre oportunidades importantes para o desenvolvimento da Região, mas exige também responsabilidade, visão estratégica e capacidade de cooperação entre todas as ilhas. Nenhuma ilha conseguirá prosperar verdadeiramente isolada das restantes. O progresso coletivo depende da capacidade de todos remarem para o mesmo lado.

Os desafios atuais são exigentes, ou seja, melhorar acessibilidades, criar emprego qualificado, combater a desertificação humana, fortalecer os setores produtivos, investir na educação, valorizar os jovens e garantir sustentabilidade económica e social. Tudo isto exige união, estabilidade e espírito de comunidade.

Os bairrismos exacerbados apenas geram desavenças inúteis e enfraquecem a Região. Não ajudam a resolver problemas nem contribuem para melhorar a vida dos açorianos. Pelo contrário, desviam atenções daquilo que realmente importa: construir Açores mais fortes, mais desenvolvidos e mais solidários.

O verdadeiro orgulho açoriano não se mede pela tentativa de diminuir outras ilhas, mas pela capacidade de valorizar aquilo que cada uma oferece ao conjunto da Região. Todos fazem falta. Todas as ilhas contam. Todas contribuem para a riqueza humana, cultural e económica dos Açores.

Como tal, celebremos então aquilo que verdadeiramente importa: a unidade de um povo atlântico, resiliente e solidário. Um povo que soube transformar o isolamento em identidade, as dificuldades em coragem e a diversidade em força coletiva. Falemos mais daquilo que nos une do que daquilo que nos separa. Porque os Açores serão sempre mais fortes quando caminharem unidos, com respeito mútuo, sentido de comunidade e esperança no futuro.

 

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