Por Carmo Rodeia

Todos os anos quando chego a esta data não posso deixar de olhar para a vida, socorrendo-me da imagem do pão que se parte e reparte. Também a vida é assim: tal como o cereal que faz o pão, também a vida é feita de sementeiras; umas crescem outras definham. E, mesmo quando crescem, não é liquido que durem para sempre os seus frutos. Tal como o pão se enche de bolor, também a vida se amachuca e se gasta.

Por isso, quando chego a esta data, não posso deixar de olhar para a vida…e perguntar com que sentido e intensidade posso viver esta dialética inevitável? Como é que nós, cristãos, somos desafiados a ter um olhar diferente sobre este movimento que é a vida? E, sobretudo, de que forma estamos disponíveis para a abraçar com os altos e baixos da cruz, que à imagem de Jesus, carregamos sobre os ombros?

Na quinta-feira da Semana Santa a mesa está posta. E todos têm lugar para tomar parte no banquete, por maior que seja a cruz. A opção é nossa, sempre nossa: de deixarmos Jesus entrar ou se, apenas o queremos cumprimentar uma vez mais e vamos continuar a não falar com ele.

Na véspera da sua morte, o Senhor confia aos seus discípulos a sua vida, a sua palavra e o seu espírito, através dos sinais do pão e do vinho, do gesto de lavar os pés…Com a celebração da Ceia do Senhor, tem início o Tríduo Pascal: três dias em que podemos mergulhar no mistério da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus. O que, por outras palavras, nos remete para uma opção clara: se queremos abrir na nossa vida um caminho pascal, que é como quem diz, abrir as nossas vidas à alegria da intimidade e comunhão com Deus.

Diz-nos o Evangelho de hoje que, depois de lavar os pés aos discípulos, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa.  E, então disse-lhes: “Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também”.

Este escandaloso gesto, dramático mesmo, se virmos os diálogos, nomeadamente com Pedro, dá-nos o exemplo que temos de tomar para a vida: uma vida cheia de sementeiras boas e de colheitas ainda melhores.

Há um ensinamento fundamental neste diálogo que nos remete para a medida do amor, que é também a medida do serviço, da disponibilidade e da vontade de estar e de ser com o outro, olhando para a frente e nunca para trás.

Se falharmos ao banquete de hoje, ainda temos amanhã, sexta feira santa,  para refletir e para conhecer a verdadeira medida deste amor: da vida até à morte, em sacrifício, na cruz, para que nasça uma nova vida. E se amanhã ainda não chegar temos o Sábado, esse dia santo, “Este `intervalo´, esta terra de ninguém, este tempo amassado entre derrotas e esperança, entre provação e júbilo é o da nossa vida” como descreve o Pe. Tolentino Mendonça.

São três dias muito desconcertantes. São três dias que nos desmascaram e nos despem de alto a baixo. Uma vez mais a questão está em saber, se depois de 40 dias, e especialmente destes três, se queremos vestir as roupas velhas e comer pão duro, ou se queremos aceitar o tal convite para nos sentarmos à mesa e dizer Jesus cuida de mim e das minhas circunstâncias…

Uma feliz e santa Páscoa!