Pelo Padre José Júlio Rocha

O capítulo sexto do Evangelho de São João é conhecido como o “Discurso do Pão da Vida”. Começa com o milagre da multiplicação dos pães onde Jesus alimenta uma multidão de cinco mil pessoas. É a referência neotestamentária ao maior número de pessoas que alguma vez esteve com Jesus. Ele passou para o outro lado do lago e todos O seguiram. Inicia-se então o Discurso. Jesus começa por dizer que trabalhem todos por um pão que alimenta para sempre, depois afirma que é Ele próprio esse Pão que veio do Céu, reforça que esse Pão é a Sua carne, para concluir que “a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele” (João 6, 55-56).

Eram palavras duras demais, incompreensíveis. À medida que Jesus ia concretizando o Seu discurso eucarístico, a multidão, desiludida, ia abandonando o lugar, deixando Jesus a falar a cada vez menos gente e, por fim, até muitos dos discípulos O abandonaram. Ficaram apenas os doze Apóstolos, a quem Ele perguntou, num último desabafo de desilusão: “também vós quereis ir embora?” É nessa absoluta solidão, nesse redundante fracasso humano que, a uma sexta-feira, numa cruz, termina a aventura humana do Profeta de Nazaré.

As igrejas vazias de hoje assemelham-se, de certa forma, a esse percurso do Mestre, a essa caminhada descendente: já não vivemos, definitivamente, a era da “cristandade de massas”, as nossas igrejas já não são – e agora vão sê-lo ainda menos – os lugares centrais e imprescindíveis onde se reúne a fé. Este paradigma acabou. Estamos na última geração “cristã”, no sentido tradicional da palavra. A próxima geração – se já não esta – concluirá o encerramento de muitos templos, a celebração tradicional dos sacramentos, a instituição “Igreja” como lugar aonde se deve ir. A ausência de missas e sacramentos durante a pandemia vem só antecipar o que já é demasiado previsível. Este é um dos maiores desafios da história da Igreja.

Há uma pagela muito conhecida que apresenta Jesus, Bom Pastor, de cajado na mão, a bater a uma porta. É a simbologia de Jesus a pedir para entrar no nosso coração. Parece que Jesus, hoje, bate outra vez à porta, mas desta vez do lado de dentro das igrejas onde O enclausurámos: é o próprio Jesus que quer sair da igreja e ir aos lugares de onde nunca deveria ter saído: os lugares dos homens. A alegoria da Igreja “hospital de campanha” do Papa Francisco é, também ela, um sinal dos tempos: afinal, porque é que comungamos senão para sermos sacrários vivos e levarmos Jesus e a Sua mensagem – mais pelo nosso exemplo do que por qualquer outra fórmula – a todos os lugares aonde pudermos chegar? Não o fizemos. Durante séculos fomos demasiado autorreferenciais, arrogantes e donos de Deus e de Jesus, quisemos prender o vento do Espírito dentro das nossas paredes e o resultado é o que se vê. Quisemos conquistar almas para dentro das portas da Igreja, quisemos converter e nem nos convertemos a nós próprios.

Há cada vez menos cristãos convictos. Há cada vez menos ateus dogmáticos. O que cresce abundantemente é o número dos indiferentes e, sobretudo, o número dos que andam à procura, tanto crentes como ateus. É este o novo espaço da Igreja, o novo areópago, não para conquistar mas para abraçar. É esta a enorme massa, a nova “cristandade”, o terreno fértil para o encontro com uma mensagem de Jesus profundamente renovada.

A Igreja dos Açores está em caminhada sinodal. Esta crise pandémica veio agudizar e baralhar muitas contas. Que braços temos para abraçar a grande massa dos que procuram, que passos temos para reencontrar os cerca de 40 mil açorianos que, nos últimos trinta anos, abandonaram a prática religiosa? Antes de pensarmos nas respostas a dar, que perguntas temos a fazer, que conselhos temos que pedir?

O grande desafio é o mesmo de sempre: voltar ao Evangelho, redescobrir Jesus. E não ficarmos num estático “ser cristão”, mas aventurar-se num dinâmico “tornar-se cristão”. Todos os dias.

*Este texto foi publicado no Diário Insular esta sexta feira, na rubrica Rua do Palácio