Pelo Pe Teodoro Medeiros

Duas gémeas siamesas, de 18 anos, sustentam a família e a empresa. É este o resumo desta fábula moderna. Os personagens, sendo todos humanos, são quase todos animalescos: o olhar da câmara é muito crítico, até grotesco às vezes, mas também relaxado e fluido noutras. No fundo, a velha luta entre o bem e o mal.

Mas não é simples, preto no branco: quem é quem? Pai e mãe são um desastre, vampiros (literalmente?) assumidos, felizes sanguessugas autoinstituídas; as filhas são o retrato da inocência. De forma contraditória, essa inocência terá de desaparecer para poder subsistir. O seu ganha pão? Cantam em batizados e festas afins, faturando 80 mil euros por ano.

O filme recebeu alguns prémios menores no Festival de Veneza mas foi preterido na corrida ao Óscar de melhor longa metragem em língua não inglesa. Não chega a ser um filme-choque: mas, sim, alguns momentos são retrato de devassidão e corrupção dos costumes. Mas vale a pena estudar os valores desta obra do italiano Edoardo de Angelis.

Os valores de produção são competentes: a sensação que fica é que se conseguiu tudo o que se pretendia. Realce para o ponto de contato entre as duas irmãs, a parte exterior da coxa: o efeito especial é artesanal mas convincente. Além disso, a sincronia das duas não trai os poucos meses de treino, por contraste com o que seriam 18 anos de vividos assim.

Os ângulos parecem ter algo de Terence Malick; luz do sol direta, cabeças cortadas sem pudor nos enquadramentos e tons escuros convenientes. Cores vivas caracterizam quem não se sabe vestir; a câmara faz movimentos mas não abusa. A música, um pouco de trazer por casa, condiz plenamente com o que um oportunista escreveria (no caso, o pai das gémeas).

A história cria contrastes e leva-os a bom termo; liberdade e escravidão; amor e parasitismo; santidade e pecado; trabalho e aproveitamento; sinceridade e engano; sonhos e mau gosto. O realizador diz que o filme é sobre “a separação e a dor que causa”. E será esse o seu grande valor: a forma como expõe, graficamente, as emoções da separação.

E aí, as atrizes estreantes dão cartas. De facto, o desempenho delas é que é a marca do filme. Merece mesmo que se lhe atire com os adjetivos todos: visceral, vulcânico, sublime, maduro, convincente, arrebatador, empolgante, genial… sobretudo o momento em que se confrontam com 2 vontades diferentes dentro de duas pessoas que eram quase a mesma.

A química das irmãs terá que ver, é óbvio, com o fato de serem realmente gémeas: essa ideia ajuda, de resto, o espetador a lidar com o turbilhão emocional que o atinge. O furação investe sem apelo nem agravo, o magnífico ponto alto do filme. Até surgir a dúvida cinéfila sobre o que reserva o futuro às irmãs: que filmes farão a seguir? Mas é isso mesmo, depois de um filme destes, não se acredita que possam manter este nível olímpico.

Uma nota ainda sobre estas 2 personagens: não são iguais durante todo o filme. Aliás, chegam à parte final com transformações significativas. Dir-se-ia até que foram feitas para contentar os apreciadores do sítio IMBD, sempre tão prontos a avaliar o famigerado character development. Dir-se-ia, não fosse o adágio definir que não se brinca com coisas sérias.

Não que a riqueza interior de um personagem seja de somenos, não é: o problema é quando se reduz tudo a saber se esse botão está on ou off num filme. Serve o pensamento outro propósito: desejar que a carreira internacional do filme seja muito boa. Porque, apesar dos seus defeitos, “Indivisíveis” merece ser visto, pelo fôlego que traz.

E que defeitos serão esses? Sempre subjetivo, este assunto, mas há aqui algumas coisas pouco verosímeis; como a ideia de que raparigas de 18 anos não tivessem, assim mesmo, sequer telemóvel ou não descobrissem que podiam ser facilmente separadas. E sem internet… em Itália? Lá se vai a suspensão da descrença…

Outro ponto é uma certa queda para um alegorismo um pouco folclórico. Nota-se logo a abrir, na primeira cena, mostrando a pobreza, sobretudo de espírito, em elementos exteriores que retratam pessoas. Mas é uma espécie de super-realismo, numa cena até desligada do resto do filme. Não é subtil; grita quando bastava apontar com o dedo (o mesmo que sucede no retrato da religião).

Mesmo assim, só pelo desempenho de Marianna e Angela Fontana tudo se perdoa.