Responsável pela causa de canonização fala em santa «para todos», pobres e ricos

A biografia de Madre Teresa de Calcutá (1910-1997) distribuída pelo Vaticano para a cerimónia de canonização deste domingo evoca a “dolorosa escuridão interior” da religiosa.

“Apesar de experimentar uma dolorosa escuridão interior, a Madre Teresa foi a todo o lado, com solicitude, como Maria no episódio da Visitação, para irradiar o amor de Jesus em todo o mundo”, refere o texto, escrito para a Missa deste domingo, em que a religiosa vai ser proclamada santa pelo Papa Francisco, na Praça de São Pedro, a partir das 10h30 (menos uma em Lisboa).

A apresentação biográfica fala da nova santa como “imagem do amor terno e misericordioso” de Deus, especialmente para com “os não amados, os não queridos e os abandonados”.

“Desde o céu, continua a acender a luz para os que vivem na escuridão aqui na terra”, acrescenta o texto do Departamento de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Santa Teresa de Calcutá, Gonxha Agnes Bojaxhiu, nasceu em Skopje (atual capital da Macedónia) a 26 de agosto de 1910, filha de pais albaneses; em 1928 entrou para a Congregação das Irmãs do Loreto, na Irlanda, e seguiu para a Índia no ano seguinte.

“Durante os 20 anos que passou na Índia dedicando-se ao ensino, distinguiu-se pela caridade, o zelo, a entrega e a alegria”, refere o Vaticano.

A biografia recorda que a fundação das Missionárias da Caridade, em Calcutá, começou a tomar forma a 10 de setembro de 1946, em resposta a um chamamento para “renunciar a tudo” e servir Jesus “nos mais pobres dos pobres”.

Seguiram-se outros três ramos da congregação: os irmãos Missionários da Caridade, as irmãs contemplativas e os irmãos contemplativos, para além de associações de colaboradores e um movimento para sacerdotes.

Na data da sua morte, a 5 de setembro de 1997, a congregação contava com 3842 religiosas, presentes em 594 casas de 120 países, incluindo Portugal.

O padre Brian Kolodiejchuk, superior geral dos Missionários da Caridade, foi o responsável pela condução do processo de canonização (postulador) e fala numa “santa para todos”.

“Para os pobres, para os ricos e para o nosso tempo, tão fortemente devastado pela violência e aridez do coração”, declarou, na conferência de imprensa de lançamento da canonização, no Vaticano.

A experiência de “deserto espiritual” ou de “silêncio de Deus” descrita nas cartas de Madre Teresa de Calcutá, foi apresentada mundialmente no livro ‘Mother Teresa: Come be my light’.

O padre Brian Kolodiejchuk, postulador da sua causa de canonização, explicou este ano, numa conferência em Portugal (26 de abril), a importância da ‘noite escura’ de Madre Teresa, à luz da dupla dimensão com que se vive o amor dos religiosos: em primeiro lugar, a ‘esponsal’, o seu amor a Cristo, que a leva a unir-se aos seus sofrimentos; e, em segundo lugar, o amor ‘redentor’, que leva a compartilhar a redenção, a anunciar aos outros o amor de Deus.

“Madre Teresa era uma mulher apaixonada por Jesus e a provação, o sofrimento, é que não sentia que era amada por Jesus, como se estivesse a ser rejeitada”, disse então, no Centro Paroquial do Estoril.

Quando Madre Teresa saiu da Índia, sublinhou, apercebeu-se de que a maior pobreza no mundo de hoje “não é a material, mas a sensação de não ser amado, de não ser querido, de não ser cuidado

“Por isso, percebemos que ela própria estava a experimentar o mesmo, também. Ela estava não só identificada com os pobres, materialmente, ao viver de forma pobre mas também identificada com os pobres, espiritualmente, ao experimentar a pobreza espiritual, no seu interior”, explicou.

Entretanto, o Papa Francisco elogiou hoje o exemplo de “misericórdia” de Madre Teresa de Calcutá e condenou o “grave pecado” de ignorar o sofrimento alheio.

“Não é possível desviar o olhar e seguir outra direção para não ver as muitas formas de pobreza que pedem misericórdia. Olhar para o lado para não ver a fome, as doenças, as explorações, isto é um grave pecado. É um pecado moderno, um pecado de hoje”, denunciou Francisco, durante um encontro com misericórdias e instituições de voluntariado de todo o mundo, incluindo Portugal, na Praça de São Pedro.

O Jubileu dos Voluntários e Operadores da Misericórdia, inserido no ano santo extraordinário que a Igreja Católica está a viver, tem como ponto culminante a canonização, este domingo, de Madre Teresa de Calcutá.

“Amanhã, teremos a alegria de ver Madre Teresa proclamada santa. Merece”, disse o Papa aos presentes.

Francisco sublinhou que a nova santa se une a todos os que na Igreja, ao longo dos séculos, “tornaram visíveis com a sua santidade o amor de Cristo”.

“Imitemos nós também o seu exemplo, e peçamos para ser humildes instrumentos nas mãos de Deus para aliviar o sofrimento do mundo e dar a alegria e a esperança da ressurreição”, apelou.

O pontífice argentino considera que não seria digno de um cristão “passar ao largo” do sofrimento humano, ficando de “consciência tranquila” só por ter rezado ou por ter ido à Missa ao domingo.

A catequese partiu da “certeza inabalável” do amor de Deus na vida de cada pessoa, que deve levar todos a dar “novos sinais de misericórdia”.

“A misericórdia não é fazer o bem, de passagem, é envolver-se”, precisou.

Francisco deixou o seu agradecimento aos “artesãos de misericórdia” que dão “credibilidade” à Igreja pelo seu trabalho, “com as crianças abandonadas, os doentes, os pobres sem comida e trabalho, os idosos, os sem-abrigo, os prisioneiros, refugiados e migrantes, as pessoas afetadas por desastres naturais”.

Estes sinais concretos de solidariedade, acrescentou, combatem a “tentação da indiferença” e o “individualismo”.

A intervenção sublinhou a importância da oração para ter “força” e “humildade” neste trabalho solidário.

O Papa concluiu com um pedido de oração, em silêncio, pelas pessoas que sofrem, pelos que são “descartados” da sociedade e pelos voluntários que os procuram ajudar, rezando ainda pelos que “olham para o lado” perante a “miséria” humana.

Antes da intervenção do Papa, os participantes ouviram cânticos e testemunhos pessoais, como o de um bancário que foi preso por causa de um erro judicial e que hoje faz voluntariado.

A assembleia ouviu ainda a irmã Sally, das Missionárias da Caridade – congregação fundada por Madre Teresa -, única sobrevivente do ataque terrorista que matou quatro religiosas no último mês de março, no Iémen.

Pelo menos 400 representantes portugueses, de várias Misericórdias em atividade no nosso país, estão no Vaticano, numa comitiva liderada por Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas – UMP.

Os responsáveis são acompanhados por D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, que cumprimentou o Papa no final da audiência especial.

A canonização, ato reservado ao Papa desde o século XIII, é a confirmação, por parte da Igreja Católica, que um fiel católico é digno de culto público universal (os beatos têm culto local) e de ser apresentado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.

Madre Teresa de Calcutá, vencedora do prémio Nobel da Paz (17 de outubro de 1979), faleceu em 1997 e foi beatificada por João Paulo II em 2003.

(Com Ecclesia)