D. João Lavrador presidiu à missa de acção de graças pelos 500 anos da Misericórdia da Horta

O bispo de Angra afirmou esta tarde na Horta que os cristãos têm a tarefa de  contrapor ao “racionalismo legalista da cultura dominante” , orientado “por interesses económicos, ideológicos, de domínio, focados no prazer, no ter e no poder”, os ensinamentos de Jesus  no amor ao próximo e fundados na “liberdade e na responsabilidade”.

“A decisão de cada um tem sempre implicação na vida e no futuro da sociedade;  não é um acto inócuo, muito pelo contrário, todos os actos e decisões, critérios e valores vão favorecer a promoção da comunidade humana ou vão intervir negativamente e ofender a verdadeira evolução da humanidade”, disse o prelado ao lembrar que caminhar ao lado de Deus e dos irmãos, é sempre um caminho exigente que tem de partir do coração de cada um .

Na missa a que presidiu, para assinalar os 500 anos de vida da Misericórdia da cidade faialense, D. João Lavrador recordou que vivemos numa sociedade marcada por uma cultura em que o ser humano “parece descartável” e por isso as instituições cristãs podem e devem fazer a diferença.

“Numa cultura que parece ver o ser humano como objecto descartável, cuja vida é desvalorizada e manipulada, enxertada entre duas fronteiras, do nascimento e da morte, e transformando a liberdade em caprichoso argumento para viciar o verdadeiro sentido e valor transcendente da vida humana, esta instituição é chamada a intervir no mundo dos homens para lhes oferecer uma visão nova sobre a pessoa e a sociedade que para ser nova só poderá vir da sabedoria divina revelada em Jesus de Nazaré” afirmou o prelado.

“É neste contexto que quero sublinhar em atitude de acção de graças, reconhecimento e gratidão a celebração dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia da Horta, cuja efeméride iniciamos hoje” esclareceu.

“Perante uma obra como a Santa Casa e com uma longa e profícua história de serviço ao próximo, oferecendo a dignidade perdida e promovendo a pessoa no contexto de um humanismo integral; mas é também em atitude de reconhecimento a todos aqueles que entregaram a esta casa o melhor das suas capacidades e do seu esforço para que em cada época da história se descobrisse por onde passava a pobreza e a exclusão para responder eficazmente aos seus desafios; por último em preito de gratidão a tantos, sacerdotes, religiosas e leigos, famílias e utentes que souberam permanecer firmes nos ideais que norteiam esta instituição e apesar de todas as contrariedades e provocações da história souberam enraizar-se na fé vivida e convivida, feita expressão de amor e de generosidade, criatividade e fermento de uma nova humanidade” acrescentou ainda.

O prelado desafiou, ainda, a instituição a não se conformar com o passado e a “descobrir as novas pobreza e exclusões”, denunciando “sempre que for necessário” os “atropelos ao ser humano e anunciar profeticamente o homem novo que recolhe a sua imagem em Jesus Cristo”.

“Foram muitos os desafios que provocaram esta instituição, ao longo destes anos, mas é igualmente verdade que hoje, se lançam sobre ela não menos interpelações” disse ainda lembrando que entre os desafios estão a fidelidade à sua identidade., marcada pelo ADN cristão e humanista.

“No tempo em que vivemos, no qual o relativismo, o materialismo e o indiferentismo parecem ter tomado conta da nossa sociedade, projectando sobre a pessoa humana uma visão deformada e alienante, esta instituição, através da generosidade e sabedoria das pessoas que a orientam, tem por dever oferecer, nos gestos e nas palavras, a verdade acerca do homem e enaltecer o amor como o centro de toda a compreensão da pessoa e da sociedade” concluiu o prelado.

A Santa Casa da Misericórdia da Horta é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) fundada entre 1520 e 1522, conforme consta dos Anais do Município da Horta. Desde a sua fundação, a Instituição tem exercido a sua ação no Concelho da Horta, onde está sediada, apoiando as populações do Pico, das Flores e do Corvo, dentro das suas possibilidades. Durante a vigência desta Misericórdia criaram-se o Hospital da Horta e o Asilo de Mendicidade da Horta, inaugurado a 13 de junho de 1843. Em 1850 foi nomeada uma Comissão Especial para gerir o Asilo separadamente da Santa Casa, tendo em 1852 voltado à administração da Misericórdia.

Em 1911 constituiu-se uma nova Irmandade para tomar conta da administração do Asilo de Mendicidade e, em 1932, a administração interna foi confiada às Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição até 1941, data em que o Asilo retomou a vida normal, ao abrigo dos Estatutos, em Assembleia Geral com a eleição da sua Mesa Administrativa. A Santa Casa integra a União das Misericórdias Portuguesas, da União Regional das Misericórdias dos Açores, da União Regional das Instituições Particulares de Solidariedade Social e da REAPN – Rede Europeia Anti-Pobreza / Portugal.