“Descer à rua não é apenas uma opção pastoral. Quando celebramos a vida no altar dos irmãos, especialmente dos mais pobres, encontramos Cristo”

O bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, desafiou os cristãos a não institucionalizarem a ação social da Igreja e a seguirem o exemplo de proximidade vivido por Monsenhor Weber Machado. O apelo foi deixado durante a sessão de homenagem promovida pela Cáritas de São Miguel, na Semana Cáritas, um ano após a morte do sacerdote natural de Água Retorta.
“Às vezes institucionalizamo-nos demasiado. Abrimos as portas e ficamos à espera que as pessoas venham”, alertou o prelado. “O padre Weber fez o contrário: foi para a rua, foi para a missão.”
Para o bispo, recordar o sacerdote é mais do que um exercício de memória.
“Lembrá-lo nesta Semana Cáritas é um ato de justiça”, afirmou, sublinhando a coerência entre o pensamento e a vida de quem viveu 93 anos de vida e 66 de ministério sacerdotal.
Ao evocar o seu percurso pastoral, destacou o estilo simples e próximo que marcou a sua ação.
“Transformou a rua no seu escritório e os bancos de jardim nas cadeiras da escuta e da hospitalidade.”
Segundo D. Armando Esteves Domingues, esse testemunho continua a desafiar a Igreja a reencontrar a essência da sua missão.
“Quando celebramos a vida no altar dos irmãos, especialmente dos mais pobres, encontramos Cristo.”

O bispo sublinhou ainda que Monsenhor Weber viveu aquilo que hoje se procura aprofundar na pastoral da Igreja: uma teologia que nasce do encontro com as pessoas.
“Ele deixou-se formar pelos pobres”, disse. “E dessa relação nasceram muitas vidas transformadas.”
Recordando uma expressão frequentemente utilizada pelo Papa Francisco, acrescentou: “Os pobres evangelizam-nos”.
O sacerdote, ordenado em Roma e professor de matemática, destacou-se também pela sua postura crítica perante as injustiças sociais. Democrata convicto, não hesitou em denunciar desigualdades e em questionar estruturas que considerava afastadas dos mais vulneráveis, o que chegou a levá-lo a ser interrogado pela polícia política do regime e censurado dentro da própria Igreja. Alertava frequentemente para o risco de a Igreja perder a simplicidade do Evangelho e afastar-se das realidades de pobreza.
Por isso, afirmou o bispo, o seu legado continua a ser exigente.
“A memória dele pode tornar-se perigosa, porque nos provoca e nos obriga a rever o nosso papel.”
Nesse sentido, deixou uma pergunta às comunidades cristãs: “As nossas paróquias medem-se pelas obras que têm ou pela atenção que dão aos pobres?”
Também insistiu na importância do voluntariado na missão da Igreja. “Profissionalizámos muitos serviços, mas não podemos dispensar as pessoas de boa vontade.”

O atual presidente da Cáritas de São Miguel, José António Gomes, destacou a marca duradoura deixada por Monsenhor Weber na instituição.
“Fazer memória dele é recordar aquilo que construiu nesta casa. Deixou uma marca indelével e uma personalidade que não deixava ninguém indiferente.”
Segundo o responsável, o sacerdote fez uma opção clara pelos mais vulneráveis, vivendo “com os pobres e para os pobres”, numa presença constante junto das periferias sociais.
Entre as áreas onde mais se destacou esteve o acompanhamento de pessoas em situação de sem-abrigo.
“Tratava-os como filhos e eles tratavam-no como pai”, recordou.
Sob a sua influência surgiram também respostas sociais concretas, como o apoio à recuperação de habitações degradadas e atividades de tempos livres para crianças.
“O ATL que dinamizou foi durante muito tempo um dos mais ativos de São Miguel”, afirmou.
Recordando o lema da Semana Cáritas — “O amor que transforma” — José António Gomes considerou que essa expressão traduz bem a vida do sacerdote. “Ele tinha realmente um amor que transformava.”
Um homem inquieto
A presidente da Cáritas Diocesana, Anabela Borba, recordou Monsenhor Weber como uma das figuras mais marcantes da história da instituição nos Açores.
“Muito aprendi com ele e foi com sentido de justiça que hoje o recordámos.”
Segundo explicou, era um homem profundamente inconformado perante os problemas sociais.
“Era um homem inquieto ou melhor, desinquieto. Queria respostas imediatas para problemas concretos.”
Na sua opinião, esse legado continua a ser um desafio num tempo em que os processos se tornaram mais lentos e burocráticos.
Um padre “avant-garde”
O jornalista Santos Narciso, amigo pessoal do sacerdote, descreveu-o como um padre “avant-garde”, marcado pelo espírito renovador do Concílio Vaticano II.
Ordenado em Roma, na Basílica de São João de Latrão, foi assistente da Juventude Operária Católica e coordenador das Casas do Povo em São Miguel e Santa Maria.
“A sua ação foi profundamente pautada pela fé e pela presença de Deus. Via no pobre o Cristo vivo.”
Para o investigador, a sua vida foi marcada por uma entrega total nas áreas social, cultural e desportiva.
“Peregrino das periferias”
A irmã Virgínia Dantas, das religiosas da Santa Face, recordou-o como “um peregrino das periferias”.
“Falava pouco de si, mas muito de um Deus que se faz próximo”, afirmou.
Mesmo depois de deixar responsabilidades na Cáritas, continuou a mobilizar voluntários para preparar refeições destinadas a pessoas em situação de sem-abrigo em Ponta Delgada.
“Era teimoso a fazer o bem”, resumiu.
Entre os testemunhos esteve também o de Luís Rodrigues, que encontrou apoio na Cáritas num momento difícil.
“As pessoas que estão na rua muitas vezes não têm apoio”, disse. “A minha vida mudou completamente. Hoje sinto-me mais seguro e mais feliz.”
Para a académica Piedade Lalanda, Monsenhor Weber destacou-se pela coragem de denunciar injustiças sociais, mesmo dentro da própria Igreja.
“Não era comum ouvir um sacerdote falar da pobreza e da desigualdade na distribuição da riqueza.”
Recordou que defendia frequentemente que “existem poucos que têm muito e muitos que têm muito pouco”.
“Era uma pessoa inconformada não apenas com a pobreza, mas com as suas causas.”
A sessão terminou com a convicção de que a memória de Monsenhor Weber Machado continua viva no trabalho da Cáritas e no compromisso social da Igreja nos Açores.
Mais do que recordar uma figura do passado, a homenagem deixou um desafio claro: transformar o seu exemplo de proximidade, simplicidade e serviço num compromisso concreto com aqueles que continuam a viver nas periferias da sociedade.