O Papa vai presidir este domingo à canonização de dez fiéis da Igreja Católica, entre eles Carlos de Foucauld, religioso francês que foi assassinado na Argélia.

A cerimónia de canonização tinha sido adiada por causa da pandemia e é a primeira que decorre desde 2019, com início marcado para as 10h00 de Roma (menos uma em Lisboa), na Praça de São Pedro.

Carlos de Foucauld, que ficou conhecido como o “irmão universal” pela sua vivência como monge eremita, no deserto, em respeito pelas outras religiões, foi morto aos 58 anos, por um grupo armado no Saara argelino, a 1 de dezembro de 1916.

O religioso francês seria beatificado a 13 de novembro de 2005, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, pelo cardeal português D. José Saraiva Martins, então prefeito da Congregação para as Causas dos Santos (Santa Sé), no pontificado de Bento XVI.

“Um homem que venceu tantas resistências e deu um testemunho que fez bem à Igreja. Peçamos que nos abençoe do céu e nos ajude a caminhar nos caminhos de pobreza, contemplação e serviço aos pobres”, referiu Francisco no centenário da morte de Carlos de Foucauld.

Nascido em Estrasburgo (França), a 15 de setembro de 1858, o religioso empreendeu em 1883 uma expedição no deserto de Marrocos que lhe valeu a medalha de ouro da Sociedade de Geografia; converteu-se ao catolicismo em 1886 e foi ordenado sacerdote em 1901 em Viviers, tendo decidido partir para Beni-Abbès, no deserto argelino, perto da fronteira com Marrocos.

Acompanhou militares pelas montanhas do Hoggar, junto dos Tuaregues, um povo nómada e hostil aos franceses; em 1909 regressa a Tamanrasset onde fica até à sua morte, apesar da instabilidade provocada pela I Guerra Mundial; foi sequestrado por um grupo de rebeldes e assassinado (1 de dezembro de 1916) por um grupo de tuaregues senussi.

A sua vida deu origem a dez congregações religiosas, entre as quais as fraternidades dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, criadas depois da sua morte.

Em Portugal, as Irmãzinhas de Jesus têm uma comunidade na Cova da Iria, onde a irmã Maria de Fátima falou com a Agência ECCLESIA sobre esta celebração.

“Para nós é realmente um momento de ação de graças, porque uma canonização é sempre uma bênção para a Igreja e para o mundo”, refere, apontando a uma celebração especial, em Portugal, no próximo dia 1 de dezembro.

A religiosa disse que, para a fraternidade, o “irmão Carlos”, como é lembrando, “sempre foi um santo” e deixou uma mensagem para o mundo inteiro.

A irmã Maria de Fátima destaca o “caminho de missionação” aberto pelo futuro santo, alguém capaz de “ir ao encontro do diferente”, no “respeito total pelo que cada um era”.

A celebração deste domingo, no Vaticano, vai contar com a presença da irmã Casimira de Jesus, que cumpre assim o sonho de estar presente num momento especial para a fraternidade.

A religiosa conta à Agência ECLESIA que tem cumprido a sua missão em várias localidades de Portugal, onde acabou por concretizar, de outra forma, o “desejo de ir para África”, ao trabalhar com imigrantes e populações desfavorecidas, em bairros problemáticos da capital portuguesa.

“África veio ter comigo. O Senhor é bom”, graceja.

A irmã Casimira de Jesus, como todas as que integram a fraternidade, teve empregos para ajudar à sustentação da comunidade, em “trabalhos simples”, como, no seu caso, numa pastelaria.

Carlos de Foucauld foi recordado por Francisco na sua encíclica ‘Fratelli Tutti’ (outubro de 2020) pelo seu ideal de “identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano”.

A canonização é a confirmação, por parte da Igreja Católica, de que um fiel católico é digno de culto público universal e de ser dado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade.

Este é um ato reservado à Santa Sé, desde o século XII, e é ao Papa que compete inscrever o novo Santo no cânone.

Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco elevou à honra dos altares cerca de 900 beatas e beatos, em cerimónias presididas na Praça São Pedro ou noutros países, como Portugal (Fátima, 13 de maio de 2017) ou Sri Lanka, além das chamadas canonizações por equipolência.

Entre os novos santos estão Francisco e Jacinta Marto, pastorinhos de Fátima; D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), arcebispo de Braga, arquidiocese que incluía na altura os territórios das dioceses de Braga, Viana do Castelo, de Bragança-Miranda e de Vila Real; o sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, morto no Brasil a 3 de outubro de 1645 durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas; o padre José Vaz, nascido em Goa, então território português, a 21 de abril de 1651, que foi declarado santo no Sri Lanka; e José de Anchieta(1534-1597), religioso espanhol que passou por Portugal e se empenhou na evangelização do Brasil.

A ‘canonização equipolente’, a que o Papa Francisco tem recorridos em diversas ocasiões, é um processo instituído no século XVIII por Bento XIV, através do qual o Papa “vincula a Igreja como um todo para que observe a veneração de um Servo de Deus ainda não canonizado pela inserção de sua festividade no calendário litúrgico da Igreja universal, com Missa e Ofício Divino”.

Entre os novos santos proclamados neste pontificado destacam-se os 813 “Mártires de Otranto”, que foram mortos nesta cidade do sul da Itália em 1480 e foram canonizados 2013.

A Igreja Católica vai ter ainda como novos santos:

Lázaro, conhecido como Devasahayam Pillai (Índia, 1712-1752), leigo, nasceu numa família hindu de casta superior e converteu-se ao cristianismo em 1745.

Segundo a nota biográfica divulgada pelo Vaticano, a sua recusa em participar de cerimónias hindus e a sua pregação sobre “a igualdade de todas as pessoas”, negando o sistema de castas hindu, levou à sua prisão, tortura e morte.

César de Bus, (França, 1544-1607), fundador dos Padres da Doutrina Cristã, uma congregação religiosa dedicada à educação, pastoral e catequese.

Teve uma experiência de conversão depois dos 30 anos de idade e começou a dedicar a sua vida à oração e à ajuda aos pobres; foi ordenado sacerdote em 1582, sendo recordado como um pioneiro na educação dos leigos na fé, usando ilustrações que ele mesmo pintou e canções e poesias que escreveu.

Luís Maria Palazzolo (Itália, 1828-1886), sacerdote e fundador da Congregação das Irmãs dos Pobres, foi ordenado sacerdote em 1850.

“Naquela época havia um clero em abundância e, como a maioria dos padres de famílias ricas que ficavam em casa e se dedicavam generosamente às boas obras, Luigi escolheu dedicar-se aos jovens” num oratório de um bairro pobre, refere a nota do Vaticano. Abriu uma escola que oferecia aulas noturnas de leitura e escrita para homens e meninos antes de abrir um oratório separado para meninas e fundar as Irmãs dos Pobres para dirigi-lo.

Justino Maria Russolillo (Itália, 1891-1955) – no dia da sua ordenação em 1913, prometeu fundar uma ordem religiosa dedicada a promover as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa, mas a sua primeira tentativa foi impedida pelo seu bispo.

Foi pregador, conferencista e escritor. A catequese permanente e a pastoral da família transformaram sua comunidade paroquial, que se tornou assim uma “casa de santidade” e o berço de numerosas vocações. Acabaria por fundar a Sociedade das Vocações Divinas para homens e as Irmãs Vocacionistas.

Anna Maria Rubatto (Itália, 1844-Uruguai, 1904) é considerada como a primeira santa uruguaia; fundadora da ordem hoje conhecida como Irmãs Capuchinhas de Madre Rubatto, dedicou-se durante anos à assistência aos pobres em Turim, à visita aos doentes no Cottolengo e ao compromisso constante no Oratório de Dom Bosco. Fundou na cidade de Loano, perto de Savona, o Instituto das Irmãs Terciárias Capuchinhas e depois partiu para a América Latina, onde trabalhou arduamente ao serviço dos pobres. Em 1892, levou suas irmãs para Montevidéu, no Uruguai, e de lá, após pouco tempo, para Argentina e Brasil. Por sete vezes, Madre Francisca atravessou o Oceano para acompanhar e visitar as suas religiosas. Foi beatificada por João Paulo II, em 1993.

Maria Domingas Mantovani (Itália, 1862-1934), co-fundadora e primeira superiora geral das Irmãzinhas da Sagrada Família. Dedicou a sua vida ao serviço dos pobres e necessitados, bem como à assistência aos doentes e idosos. João Paulo II declarou-a beata em 2003.

Tito Brandsma (Holanda, 1881 – campo de concentração de Dachau, 1942), ingressou nos Carmelitas em 1898. Ordenado em 1905, foi enviado a Roma para continuar os seus estudos e, lá, tornou-se correspondente de vários jornais e revistas holandesas.

Quando voltou para casa, fundou a revista ‘Karmelrozen’ e, em 1935, foi nomeado capelão da associação de jornalistas católicos holandeses. Durante a II Guerra Mundial, foi preso e enviado a Dachau por traição depois de defender os judeus e encorajar os jornais católicos a não publicarem propaganda nazista. Foi morto com uma injeção letal em 1942, aos 61 anos, e cremado no campo.

Maria Rivier (França, 1768-1838), fundou as Irmãs da Apresentação de Maria em 1796 durante a Revolução Francesa, quando muitos conventos católicos foram fechados e as atividades religiosas foram proibidas. A Santa Sé destaca que a sua santidade foi cultivada desde o tempo em que criança, que sofria de uma doença que a impedia de andar; foi curada e aos 18 anos abriu uma escola para crianças na sua cidade natal. Foi beatificada por João Paulo II, em 1982.

Carolina Santocanale (Itália, 1852-1923), também conhecida como Beata Maria de Jesus, fundou a Congregação das Irmãs Capuchinhas da Imaculada de Lourdes. Nascida numa família rica, acabaria por abandonar a ideia de uma vida de clausura, que cultivava desde menina, e colocou-se ao serviço da população, que a chamava de “senhora”, mas que admirava sua humildade. Estabeleceu-se na cidade de Cinisi, onde abriu um jardim de infância, um educandário e uma oficina de costura. Abraçou a espiritualidade franciscana reuniu outras jovens que queriam dedicar a sua vida a ajudar os mais necessitados.