Por Carmo Rodeia

A italiana Laura Mesi tornou-se esta semana muito famosa por ter “casado” com ela própria. A personal trainer dum ginásio de Monza, a norte de Milão, cidade que é sempre noticia mas por causa  dos recordes de velocidade que ali se atingem, no circuito de fórmula 1, convidou 70 familiares e amigos para um “casamento tradicional”: vestido de noiva, marcha nupcial, bolo de três andares, muito champagne… só faltou mesmo um detalhe: o noivo e um celebrante.

O insólito aconteceu porque Laura terá feito uma promessa a si mesma: se até aos 40 anos não encontrasse a sua alma gémea “casar-se-ia” consigo mesmo. E assim fez a italiana que “casou” consigo mesma em nome “do amor próprio”, o que quer que isto signifique. Há muito tempo que não me lembro de uma notícia tão bizarra.

E não é que não é a primeira a fazê-lo, embora diga que sim. Em maio do ano passado, um italiano, chamado Nello Ruggiero, “casou” consigo mesmo numa cerimónia na cidade de Nápoles. No Japão, uma agência de viagens começou a oferecer cerimónias para mulheres solteiras em 2014. As notícias de pessoas que se “casaram” sozinhas começaram a aparecer em 1993, inspirando vários livros e algumas séries de televisão como o Sexo e a Cidade, em que  quatro mulheres nova-iorquinas, independentes, apenas queriam o que o comum dos mortais quer: amor de outra pessoa. Ainda assim, de certa forma, eram mulheres solitárias, voltadas para si.

À nova moda, que parece estar a ganhar alguns adeptos, sobretudo em sociedades desenvolvidas em que as pessoas não têm tempo para nada e não priorizam coisa alguma a não ser a sua auto satisfação, alguns chamam  a este comportamento “sologamia”. Fui ver ao dicionário mas o resultado foi sempre “palavra não encontrada”.

Ao lermos uma noticia destas podemo-nos rir, alarmar, encolher os ombros, assobiar para o lado, irritar, escandalizar ou questionar a saúde psicológica de alguém capaz de fazer isto. Mas, num segundo momento, não deveremos desaproveitar o momento para descer a um patamar mais profundo da descodificação deste ato simbólico, que é como quem diz, tentar compreender o que é que leva racional ou emocionalmente um ser humano razoável a inventar um comportamento destes. E não precisamos de nos esforçar muito, nem sermos especialmente moralistas para percebermos que no cerne de toda esta história está uma enorme e profunda solidão, coisa a que estamos profundamente desabituados. E, quando confrontados com ela reagimos-lhe mal, esquecendo-nos que somos seres solitários. Fomos na infância e sê-lo-emos de novo na velhice. Mesmo os que têm uma existência afectiva plena. Mas , `yet, não sabemos viver sozinhos.

Ás vezes pergunto se teremos suficiente literacia afetiva hoje em dia, tanto para lidar com o sucesso do compromisso e da relação como para lidar com o insucesso e com a solidão, sem acabarmos a fazer disparates e figuras ridículas como Laura Mesi.

Não precisamos de alinhar pelo diapasão de Denis de Rougemont que, em 1938 no ensaio “O Amor e o Ocidente”,  tanto criticou a visão que o mundo ocidental sempre deu ao amor, por culpa da literatura.

O ensaísta criticava uma certa visão do amor como algo arrebatador, a paixão e menos um compromisso. Isto não é novo para ninguém, todos falamos nisto nos cafés, pois tivemos “Tristão e Isolda”, “Werther”, “Romeu e Julieta” e outros. E temos ainda uma visão mais cruel: em cada 100 casamentos há 70 divórcios, mais coisa menos coisa. Mas será isto que justifica a tal “sologamia”?

Nada justificará tamanha bizarria. Nem sequer a desilusão…

Não temos de nos matar se não somos correspondidos, como Werther, mas também não temos de ser uns aristocratas aborrecidos com a vida ou uns hedonistas excêntricos.