Por Carmo Rodeia

O acordo alcançado entre a União Europeia e a Turquia, para o repatriamento de todos os refugiados que chegaram ou chegarão clandestinamente às ilhas gregas, é se calhar uma das maiores capitulações da ideia de Europa. A Turquia não mudou; nós é que mudámos e não foi pouco.

O alerta vem de todos os lados e contrasta com algum triunfalismo de certos líderes europeus.

O primeiro a chamar a atenção foi o novo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados: não só viola os preceitos da lei internacional e humanitária, como pode condenar definitivamente as populações em risco e em fuga da guerra, da perseguição política ou religiosa e da pobreza extrema.

O diretor para a Europa da agência para os refugiados da ONU disse,  em Genebra, que “a expulsão colectiva de estrangeiros é proibida pela convenção europeia dos direitos humanos”. Organizações como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch (HRW), “destruíram” o novo plano, que nas leituras mais simpáticas foi descrito como impraticável e irrealista, e nas críticas mais contundentes  atacado como desumano e ilegal. É uma não solução, uma  vez que não resolve problema nenhum, resumiram os Médicos Sem Fronteiras.

O acordo tem por base um estranho programa de troca de refugiados, no qual a Turquia aceita a deportação de todos os estrangeiros que partirem do país para o espaço europeu de forma ilegal, independentemente da sua origem ou estatuto legal: por cada migrante “devolvido” ao território turco, a União Europeia acolherá um refugiado sírio “legítimo”, entre os 2,7 milhões que vivem nos campos turcos. E terá de pagar 3 mil milhões de euros de ajuda financeira à Turquia.

A capitulação europeia permite travar as entradas, impedir a instalação de milhares de refugiados nos seus países, e responde às pretensões da Turquia, que aproveitou a abertura de Bruxelas para forçar a liberalização da entrada dos seus cidadãos no espaço Schengen já em Junho. E, cereja no topo do bolo,  para agilizar o seu processo de adesão à União Europeia.

O Papa, uma vez mais,não ignorou o assunto e juntou a sua voz aos protestos, contra a “indiferença” global perante os que sofrem, à imagem do que aconteceu com Jesus .

“Penso em tantas pessoas, em tantos marginalizados, em tantos deslocados, em tantos refugiados dos quais ninguém quer assumir a responsabilidade do seu destino”, disse na homilia da Missa de domingo de Ramos.

A este propósito Francisco recordou que, depois de uma entrada triunfal em Jerusalém, o próprio Jesus sentiu “na pele a indiferença, porque ninguém quis assumir a responsabilidade do seu destino”.

Entramos na Semana Santa. Tempo para cada um de nós aceitar as suas responsabilidades.

Hoje, em Portugal, na Europa e no mundo são muitas as circunstâncias que nos convidam à mudança, à transformação e ao serviço. Em todas as dimensões da vida é preciso fazer eco das palavras e do rosto de Jesus, que se oferece por todos. Não se trata de fazer um percurso interior mas de dar corpo a uma nova forma de vida, que trate todos os seres humanos com dignidade.

Será que alguma vez, algum líder europeu conseguirá ter tempo para ler e fixar o evangelho para partilhar num Conselho Europeu? Antes disso já a Turquia terá aderido à Europa… e, nessa altura, poderá não ser possível.

Boa Semana Santa e, sobretudo, feliz Páscoa.