Por Monsenhor António Saldanha e Albuquerque*

A tradição litúrgica do Oriente coloca a Solenidade de Todos os Santos imediatamente a seguir ao Pentecostes, porque os Santos são a excelência dos frutos do Espírito de Deus. No Ocidente é celebrada em Novembro, quando já consumadas as colheitas do Verão e feitas as vindimas, se  saboreiam os frutos da natureza.

Charles de Foucauld, cuja canonização se avizinha, é um dos melhores “frutos do Espírito” que a Igreja recolheu na sua longa história.

Os desertos do Saara conheceram este Santo extremamente singular, que embora francês e católico convicto, não procurou impor nem o modelo cultural da sua pátria de origem nem os valores e a fé da sua religião, sem contudo perder um intenso desejo de levar Jesus aos ambientes que o não conheciam ou rejeitavam.

Charles de Foucauld nasceu privilegiado pelo status social que se atribuía à aristocracia na sociedade do século XIX e mais ainda, porque os seus pais e avós eram pessoas profundamente cristãs. A adolescência e o período passado no exército colonial fizeram-no afastar-se da fé e abraçar um estilo de vida que mais tarde lhe provocaria uma desesperada sede de Deus.

Tinha 28 anos quando se converteu, depois de 12 anos de vida sem acreditar em Deus e sem quaisquer balizas morais.

O que pensava do período de afastamento de Deus, deixou escrito em várias cartas como esta: «Nenhuma fé […] impiedade, discursos, leituras ímpias, mentira, furto, pecados vergonhosos, orgulho e vaidade insensatos, egoísmo inaudito, indiferença às dores dos outros, despesas loucas, jamais uma esmola, jamais uma moeda dada aos pobres, avidez insaciável e preguiça, que tomaram tais proporções que formaram a minha característica distintiva e que dão repugnância até aos meus amigos, sensualidade extrema, nenhum desejo de bem, nenhum amor à verdade, indiferença a tudo, menos ao meu prazer […] Durante os últimos quatro anos deste período, todo o bem, todo o bom sentimento, toda a boa aparência pareciam terem radicalmente desaparecido da minha alma: não restava senão o egoísmo, a sensualidade, o orgulho e os vícios que os cortejam […]. Eis onde assim cedo chega, não obstante grandes graças, não obstante uma natural tendência para o bem sob muitos aspectos, não obstante uma pia e atenta educação, não obstante o afecto e os bons exemplos de santos parentes, eis onde assim depressa chega a alma que se afasta de Ti, ó minha única fonte de todos os bens, ó meu Senhor e meu Deus! […]As pessoas mais mundanas, os meus companheiros, não me estimavam: eu dava-lhes desgosto, repugnância, era menos um homem que um porco».

O exemplo de vida cristã de uma sua familiar e a inteligente orientação espiritual do seu confessor Padre Henri Huvelin, reconduziram-no aos valores evangélicos.

Após um breve período na Trapa, redige um regulamento para um Instituto que idealizou e que deu origem à Congregação dos Pequenos Irmãos de Jesus. O regulamento original pretendia uma imitação o mais perfeita possível da vida de Jesus em Nazaré feita de trabalho, humilhação e anonimato.  Foi considerado pelo Padre Henri Huvelin, humanamente impraticável e por isso reformado.

Ultrapassada a rejeição da ideia de se tornar sacerdote, por se considerar indigno, percebe que este ministério poderia ser de grande ajuda para a evangelização. Uma vez ordenado, foi para a Argélia onde exerceu o seu ministério até à sua morte, motivada em parte pelo ódio à fé.

A vida e o ministério de Charles de Foucauld são para a Igreja de hoje uma espécie de quinto Evangelho. Soube unir perfeitamente a horizontalidade da Missão que obriga a sair do conforto alienante para entrar na vida dos homens e mulheres, com a verticalidade que através da oração, transporta o espírito humano até á comunhão com Deus. O encontro com o próximo em Charles de Foucauld torna-se também pretexto e veículo de encontro com o Mistério revelado em Jesus.

Inserido num mundo humanamente hostil pela geografia e clima e espiritualmente difícil porque o Império Otomano procurava através da fanatização das populações muçulmanas criar a ideia de que os adversários que combatia eram também inimigos do Islão, Foucauld assumiu uma missão baseada na estrita imitação da vida de Jesus, na adoração da Eucaristia e na vontade de converter ao cristianismo os muçulmanos.

Passou horas e horas ajoelhado diante da Eucaristia, procurou a pobreza vivendo-a até com excessos, amou os desprezados e percorreu a pé, solitário e sem quaisquer meios, milhares de quilómetros nos desertos por acreditar que não podia fazer outra coisa senão viver para Deus.

A pobreza e a vida contemplativa diante de Jesus na Eucaristia são a razão da sua santidade. Não só viveu para os pobres, mas viveu pobre. Foi pobre com os pobres. Mais que falar aos pobres ou pregar esta virtude cristã, viveu na quase miséria e dependente da caridade de estranhos. O testemunho da sua vida foi a sua melhor homília sobre a pobreza. A contemplação na adoração do Santíssimo Sacramento tem nele uma característica impressionante: tinha uma preocupação constante de levar a Eucaristia às regiões e lugares onde Jesus nunca estivera.  Estava convencido que a Presença real de Jesus no Saara, mesmo se desconhecido, podia ter um efeito prodigioso de bênçãos sobre todos as pessoas que viviam no deserto. Para Foucauld o verdadeiro missionário era a hóstia consagrada. Trazer consigo Deus Eucaristia e não ser mais que o seu servo e silencioso adorador foi sem dúvida um dos seus traços espirituais mais profundos.

Charles de Foucauld acreditava na necessidade de converter a Cristo os muçulmanos. Para atingir esse fim traduziu para os Tuaregues o Evangelho e compôs as primeiras gramáticas e dicionários que existem na sua língua.

Estava convicto de que para aproximar os muçulmanos ao cristianismo era fundamental amá-los e fazer-se amar por eles.  Como Paulo foi hebreu entre os hebreus, Foucauld foi tuaregue entre os tuaregues. Depressa perceberam que a sua presença no meio deles era um sinal de um amor que tinha origem em Deus e que o levava a defender os pobres, a fazer-se o porta-voz das suas necessidades, a multiplicar os seus apelos à justiça contra os que abusavam do poder.

Na noite de 1 de Dezembro de 1916, traído por um muçulmano a quem já prestara diversos auxílios, foi atacado e negando-se a pronunciar a fórmula de profissão de fé islâmica, foi martirizado.

Na sua juventude fizera um trabalho de exploração do território de Marrocos que lhe valeu uma medalha de mérito da Sociedade Geográfica de Paris, que o inseriu entre os seus membros. Mas dar-nos a conhecer como poucos místicos os territórios que a alma humana pode ter que percorrer até chegar à comunhão com Deus, foram um legado bem maior que nos deixou.

Charles de Foucauld ensina-nos a aprender a cartilha da Esperança, virtude pouco apreciada, mas vital para a saúde mental e espiritual. Com ele, sabemos que por mais longa e profunda que seja a noite de pecado e de crise, é sempre tempo de encontrar o perdão de Deus e abrir-se às surpresas que reserva aos que O procuram de mente aberta e com simplicidade.

O ter conseguido romper com os sortilégios do pecado que foi um terreno que conheceu tão bem como os desertos africanos, para chegar na humildade e silêncio à experiência da conversão radical como foi a sua e ao serviço aos mais pobres como ele conseguiu concretizar, constituem hoje um dos maiores legados da espiritualidade e modelo de Missão deixados por um Santo.

*Monsenhor António Saldanha e Albuquerque é Secretário da Congregação Para a Causa dos Santos, no Vaticano e colaborador regular do Sítio Igreja Açores