Há festa este fim de semana no último dos grandes impérios da ilha Terceira

O curato de São Carlos, na ilha Terceira, vive este fim de semana as festas do Império do Espirito Santo. A principal novidade deste ano prende-se com o regresso de duas coroas centenárias ao Império, feitas de folha da Flandres ou lata e pintadas com purpurina. As coroas, de quatro braços, datam do século XIX e foram devolvidas ao império por um particular, na passada terça-feira.

Esta mesa redonda inaugurou uma exposição com todas as coroas do Império de São Carlos, um dos mais antigos da ilha.

O Império, que já decorre desde o inicio da semana tem o seu ponto alto este domingo com a eucaristia e a coroação, como foi prometido pelo povo deste lugar.

A irmandade do Divino Espírito Santo do lugar de S. Carlos constituiu-se na sequência de uma crise vulcânica que se desenvolveu em 1761 no interior da ilha, a última de grande dimensão, registada na Terceira e que se prolongou por vários meses, fazendo expelir lava em diversas direções, alterando a orografia de vastas áreas da ilha.

O povo invocou o Divino Espírito Santo e o fumo dissipou-se pouco depois. Facto que foi tomado como um milagre, assinalado pelos anos adiante com a instituição de uma Irmandade do Espírito Santo e a realização da festa do Império.

De acordo com relatos da altura, citados pela Página da Irmandade, a lava correu abundante pelas encostas, em três correntes. Uma dirigiu-se para os Biscoitos e apanhou o povo que subia ao interior da ilha, como uma coroa do Divino, em direção ao local da primeira explosão.

Ninguém foi apanhado por esta corrente que tinha cerca de uma légua de comprido e mil braças de largura. Soterrou 27 casas de moradia e cobriu grandes extensões de vinhas e pomares. A lava corria devagar, tão devagar que se conta até o caso de pessoas que andando na procissão acendiam as tochas que por vezes se apagavam. O vulcão vomitou lava por oito dias consecutivos, lançando também chuveiros de areia e cinza por toda a ilha.

Em São Carlos o povo saiu à rua implorando a misericórdia Divina, levantando um estrado de madeira junto à ermida de S. Carlos Borromeu, onde depositou uma coroa do Espírito Santo.

A vigília foi constante e o fumo manteve-se três semanas sem ultrapassar os limites do estrado, desaparecendo por completo a 21 de Setembro, dia em que a Igreja venerava o Evangelista S. Mateus. E acrescenta que, em ação de graças pelo desaparecimento da estranha fumarada, iniciaram-se os festejos em louvor do Divino Espírito Santo.

Diz, ainda o Portal da Irmandade, que o povo não esqueceu o milagre atribuído ao Espírito Santo e presta-lhe a homenagem devida, anualmente, no último domingo de Setembro, com a coroação do Imperador e distribuição do Bodo.

Nos primeiros anos, a coroação decorria na ermida de S. Carlos Borromeu e os festejos tinham lugar no caminho, junto à porta do pequeno templo. No lado contrário armava-se o “Teatro”, em madeira, onde o Imperador presidia à festa.

Só em 1814, surgiu a estrutura em alvenaria mas com uma configuração diferente da que tem hoje, seguindo o modelo vigente na época, que em tudo se assemelhava a um alpendre: estava implantado em plano elevado, não teria mais de quatro colunas e um teto, sendo completamente aberto na frente e nos lados, para que todos pudessem ver o que se passava no interior.

Na prática, era um “Teatro” onde se representava anualmente o Auto do Império, renovando a crença no reino do Espírito Santo, que promete a igualdade, a abundância e a paz universal.

Com o correr dos tempos, a estrutura foi melhorada, tapada nos lados e na frente, construiu-se um nicho no interior e deixou de ser um “Teatro” para parecer uma capela, onde ainda hoje se reza o terço e se deposita a Coroa.

A Irmandade de São Carlos é uma das mais antigas da ilha Terceira. Desde o inicio do ano tem promovido uma série de atividades para pontuar estes dois séculos de história. No momento alto do Bodo, realiza-se a distribuição de uma “pensão”, composta por pão, carne e vinho, por todos os irmãos que, sendo predominantemente residentes neste lugar de Angra do Heroísmo, estão também espalhados por toda a ilha Terceira.

O Culto ao Divino Espírito Santo é uma das manifestações de religiosidade popular mais evidentes nos Açores. Assinala-se sempre na segunda feira de Pentecostes, data do feriado da Região Autónoma dos Açores.

Devido à importância desta festa, o presidente do Governo dos Açores concedeu a habitual tolerância de ponto na tarde do dia 01 de outubro aos funcionários da Administração Pública Regional cujos serviços estejam sediados no concelho de Angra do Heroísmo, Terceira, Açores.

Segundo uma nota enviada às redações, o executivo açoriano acrescenta que o despacho de Vasco Cordeiro, hoje publicado em Jornal Oficial, refere que “é habitual a concessão de tolerância de ponto, tendo em conta a importância da tradicional festa da Segunda-Feira de São Carlos para a população” e que se traduz “numa grande adesão e participação nas manifestações que naquela data se realizam”.