Falta de capacidade para o compromisso; cultura assente no individualismo, dificuldades de desenvolver um projeto de vida e falta de fé afastam jovens da igreja.

A opinião é do casal responsável pelos Centros de Preparação para o Matrimónio na diocese de Angra, Catarina Miranda e Rogério Martins. Na Semana da Vida, em que se celebra o Dia Internacional da Família, o Sítio Igreja Açores tenta explicar o que está na base da diminuição do número de matrimónios entre os mais jovens; os desafios que se colcoam à família na transmissão de valores e da fé e que papel está reservado aos movimentos de apostolado na nova evangelização, sobretudo dos jovens.

 

 

 

Sítio Igreja Açores- As últimas estatísticas revelam que o número de casamentos está a diminuir, quer no que respeita ao casamento civil quer ao matrimónio. Na diocese de Angra em três anos passamos de 600 para pouco mais de 450 matrimónios. O casamento caíu “em desuso”?

Catarina e Rogério Martins- Não diríamos necessariamente que o matrimónio tenha caído “em desuso”, mas que a realidade de hoje é diferente da de outrora. Há uma nova realidade económico-social, estuda-se até mais tarde, a dificuldade em entrar no mercado de trabalho aumentou. Estes factores, entre outros, resultam numa tardia definição do projeto de vida dos casais, e todas estas incertezas propiciam a união conjugal pré-matrimonial. A acrescentar a isto, aqueles casais que recebiam o sacramento do matrimónio por “imposição” e/ou tradição familiar, são cada vez menos, fruto de uma mudança de paradigmas e valores da nossa sociedade. Contudo, o factor primordial será a falta de Fé dos casais e de uma consciência de vocação matrimonial.

 

Sítio Igreja Açores- Onde é que nós como igreja e família erramos ou estamos a errar na educação dos nossos jovens?

Catarina e Rogério Martins-Os nossos filhos são o nosso “espelho”.

Os filhos têm falta de testemunho dos pais e de uma verdadeira vivência de família cristã. Pais que deixam as crianças à porta da catequese ou na porta da igreja, e vão embora; pais que não ensinam os filhos a rezar; pais que não participam na missa dominical; pais que não ensinam nem praticam os valores da solidariedade e do respeito; pais que não são pedras vivas da Igreja. Há uma mentalidade errada de que a Igreja são os padres ou um mero edifício de pedra.

Em geral a falta de vocações para o matrimónio, e até sacerdotais, é uma consequência da crise da instituição “Família” na sociedade de hoje, faltam os valores, designadamente os valores cristãos, e assim os jovens não têm o ambiente (ninho) propício para receberem o chamamento da sua vocação.

 

Sítio Igreja Açores- A realidade mostra que muitos dos que casam passam primeiro por uma experiência conjugal. A linguagem dos materiais do CPM está atualizada e à medida dos desafios colocados por esta nova realidade?

Catarina e Rogério Martins- Esta é uma realidade, nos últimos anos tem aumentado a participação de casais que já vivem uma experiência conjugal, e que em determinada altura do seu relacionamento sentem que falta algo na sua relação – a bênção de Deus. No decorrer das sessões de preparação para o matrimónio, é curioso observar como o testemunho dado por estes é importante para os outros casais, porque já partilham uma vida em comum com alegrias e dificuldades, e muitas vezes pela sua caminhada na Fé.

De uma forma geral os manuais do CPM adaptam-se também a esta realidade, havendo contudo a necessidade dos casais coordenadores moldarem o discurso às diferentes realidades que encontram nos grupos de preparação.

 

Sítio Igreja Açores- O Matrimónio é um dom e uma graça. O Papa Francisco dizia há pouco tempo numa catequese que fez em Santa Marta que “nem só o homem, nem só a mulher são imagem de Deus mas ambos, como casal, são imagem do criador”. Porque é que é tão difícil explicar e viver isto?

Catarina e Rogério Martins- Como é que podemos explicar que há um Plano Salvador de Deus para todos os Homens, sem ser pela Fé? Quem já teve a Graça de ter encontrado Cristo na sua Vida, tem o caminho facilitado; contudo, não é fácil viver como um verdadeiro cristão, e este desígnio torna-se impossível se nos faltarem valores orientadores ou a Fé.

Temos a consciência que uma das vias é a abertura aos outros, e que na nossa vocação para o matrimónio temos em casal que ter um papel activo neste Plano. Enquanto casais fecundos somos chamados a procriar, a educar os nosso filhos com valores cristãos, a participar activamente na sociedade e na Igreja.

 

Sítio Igreja Açores- É a cultura dominante ou somos nós que temos tanta dificuldade para assumir compromissos?

Catariina e Rogério Martins– Ambas são indissociáveis, a nossa cultura é o reflexo do nosso individualismo, e o nosso individualismo fortalece-se na nossa cultura actual.

A nossa sociedade tem claras dificuldades em assumir compromissos, a todos os níveis: comunitários, políticos, familiares, entre outros. Somos capazes de tudo, e de ter opinião sobre tudo, quando estamos sentados no sofá, mas não nos sentimos incentivados a participar activamente na sociedade.

Nós cristãos, temos que ter a consciência de que a Igreja é Comunidade, e que somos chamados a abandonar o nosso comodismo e individualismo e trabalhar em prol de uma sociedade melhor. Só é um verdadeiro cristão aquele que está comprometido com a família, com a comunidade e com a Igreja.

 

Sítio Igreja Açores- Com tantos movimentos ligados à família, como falhamos tanto?

Catarina e Rogério Martins– Seria fastidioso enumerar todas as possíveis causas (de maior ou menor importância), mas acho que pode ser resumido num único motivo que é o medo do compromisso.

De uma forma geral, os nossos jovens após o Crisma desaparecem da Igreja. É a idade da contestação, da revolta e da mudança, quase sempre aliada a uma fraca formação e a uma ausência de vivências e testemunhos cristãos.

A aproximação à Igreja volta a acontecer quando decidem casar (conscientes ou não do sacramento que vão receber). Nesta fase da vida, mais adultos, com um projeto de vida a ser delineado, é a altura ideal para “pescar” estes homens e mulheres.

Pela nossa experiência, a grande maioria dos casais chegam ao CPM por “imposição da burocracia”. Mas ao longo das sessões (que são no mínimo seis, que duram entre 3 a 5 semanas) vão abrindo o coração, e chegam ao final mais abertos à mensagem de Cristo, e com vontade de continuar os encontros.

A nosso ver, é aqui que está a oportunidade e o desafio: levar estes jovens casais a ligarem-se à Igreja através dos movimentos ligados à família. O desafio é saber como?  Talvez começando por manter os encontros após o CPM, mesmo que com menor regularidade, acompanhando o casal nos primeiros meses/anos após o matrimônio, e em simultâneo fazer a ligação com os movimentos. Mas isto obriga a uma grande dedicação dos casais das equipas do CPM, com um necessário acompanhamento íntimo dos párocos.

 

Sítio Igreja Açores- Vivemos tempos auspiciosos com a proximidade do segundo “andamento” do Sínodo sobre a família. Quais são as vossas expetativas?

Catarina e Rogério Martins- Nós esperamos que ocorram mudanças, contudo, temos noção que o Papa Francisco tem entre mãos uma tarefa gigantesca. Existe muitas vezes a tendência de olhar para este Sínodo da Família através de um prisma europeu e ocidental, e achar que este Sínodo serve ou irá resolver este ou aquele problema específico da nossa sociedade, esquecendo que a nossa realidade e interesses não são os mesmos do que em África, na Ásia e no resto do mundo, e que há sempre uma grande resiliência à novidade e à mudança.

 

Sítio Igreja Açores- Como casal responsável diocesano pelo CPM, que desafios se colocam à vossa ação?

Catarina e Rogério Martins- O grande desafio à nossa acção é, em primeiro lugar, a dispersão geográfica. O facto de sermos noves ilhas impede o contacto directo com as equipas coordenadoras das diferentes ilhas. Outro desafio é a renovação das equipas, pois em alguns locais tem sido difícil criar novas equipas ou renovar as existentes.

Nós pertencemos à equipa de CPM da paróquia do Senhor Bom Jesus, em Rabo de Peixe, que é uma equipa com uma média de idade baixa. Notámos que este facto contribui para a empatia com os casais em preparação, pelo que é importante manter casais jovens nas diversas equipas de CPM da Diocese, e queremos trabalhar neste sentido.

 

Sítio Igreja Açores- Estamos a viver a Semana da Vida, este ano subordinada ao tema “Vida com dignidade, a opção pelos mais fracos”. De que forma a família como célula da sociedade pode contribuir para essa dignidade?

Catarina e Rogério Martins– As crianças e os idosos são sempre os mais fracos, e o aborto e a eutanásia são o reflexo de uma sociedade egoísta que acredita que é acabando com vidas humanas que se resolvem problemas.

Acreditamos que a Família solidária e comprometida é a única forma digna de responder a estes problemas.