Por Carmo Rodeia

Por estes dias revi uma imagem da “Adoração dos Magos”, um quadro de Domingos Sequeira, pintado em 1828, em Madrid, onde estava exilado e impedido de regressar a Portugal, adquirido pelo Museu Nacional de Arte Antiga em 2016.

Trago-o à colação por ser uma tela apropriada aos dias de festa que vivemos, bem próximos do dia de Reis, da Epifania e do baptismo do Senhor.

Trata-se de uma  tela panorâmica gigante que integra a série Palmela, com quatro pinturas religiosas, e retrata a chegada do cortejo dos Reis Magos a Belém. A luz conseguida pelo pintor dá à tela uma ideia de transcendência em perfeita sintonia com o tema descrito. E,  a partir dela, podemos compreender toda a catequese que esta visita nos traz, através do Evangelho de Mateus, o único que a aborda, embora não diga em momento algum quem são os magos e de onde vêm.

Hoje, contudo, a memória preserva a convicção de que vieram de terras longínquas, que seguiram uma estrela, conversaram com Herodes, adoraram o Menino, ofereceram ouro, incenso e mirra e, depois, avisados pelo anjo, voltaram às suas terras por outro caminho, para “fugirem” a um novo encontro com Herodes. E desta narrativa ficam algumas ideias chave: os magos vêm de longe o que significa que o Messias não chegou apenas para o povo de Israel mas para todos os povos da Terra; que o Menino Jesus foi acolhido por todos desde os mais sábios (como os magos) até aos pastores, sem atender à cor, à raça ou idade (os três eram de raças e idades diferentes) e todos seguiram uma estrela que emanava uma luz distinta de todas as outras como que a indicar um caminho.

Outros aspectos interessantes, subjacentes a esta narrativa, prendem-se com a viagem longa e atribulada, como a de toda a humanidade, mas que, ainda assim, não desmobilizou os Magos nem os desviou desse caminho que os levaria ao encontro com Jesus. Tal como eles, somos todos os dias chamados a enfrentar situações difíceis.

No próximo sábado, celebra-se o dia de Reis. Em Portugal faz-se jantar de familia à volta do bolo Rei e abrem-se as portas de casa para se ouvir cantar as Janeiras. Em Espanha trocam-se os presentes.

Os magos têm esse condão de prolongar o Natal, essa luz nascida que dá alegria e esperança à vida. Como disse o Papa Francisco, não basta sabermos que Jesus nasceu “se não fazemos Natal com ele no nosso coração”. E isso só se consegue se projetarmos a sua luz na nossa vida pondo de lado o pessimismo. A grande lição destes reis do oriente está na sua simplicidade porque, apesar da sua importância, souberam adorar Jesus. Caminharam e lutaram contra diversos obstáculos.

A vida é um caminho contínuo, feito de esperança, de procura; um caminho que, como com os Magos, prossegue mesmo quando momentaneamente a luz desaparece da vista. É nisto que nos temos de focar. De outra maneira será mais difícil.

Os Magos não ouviram Herodes; apenas seguiram a estrela e nela depositaram toda a esperança. Só quem tem o olhar lavado e o coração desprendido pode de facto entregar-se a este caminho.

“Diz ao meu coração que não é tarde, nem longe
segreda-me que não tenho de fazer coisa nenhuma
senão deixar-me amar”(JTM, 24 dezembro de 2017 no SNPC)

Bom ano de 2018!