Papa “é corajoso” na denúncia e na critica A Encíclica “Laudato Si” é um documento “corajoso” que põe em causa a “lógica do capitalismo” e realça a “necessidade de uma resposta coletiva a longo prazo” para ultrapassar problemas reais como o aquecimento global, a destruição dos ecossistemas e a luta pelos recursos naturais.

A opinião é do Professor Universitário Tomaz Dentinho que leciona entre outros, o mestrado em Conservação da Natureza na Universidade dos Açores.

“Esta Encíclica que já enviei aos meus alunos e que deve ser um documento fundamental na nossa reflexão nos próximos tempos tem a particularidade de ser um texto muito coerente e centrado no tempo atual”, refere o docente em declarações ao Sítio Igreja Açores lembrando que o texto do Papa Francisco elenca problemas como as migrações forçadas, as guerras pela disputa de recursos naturais e aponta responsáveis diretos como sejam “o capital e a tecnologia que não foram capazes de promover uma verdadeira simbiose entre o homem e o meio ambiente”.

Além de apontar os erros “grosseiros” que têm sido cometidos pelos políticos e pelas sucessivas governações, nos diferentes estados, o Papa Francisco “olha para os problemas numa perspetiva de longo prazo, o que é uma novidade fora da lógica das atuais governações muito centradas nos calendários eleitorais” e volta a colocar Deus no centro da discussão, sublinha o docente universitário que é também um dos responsáveis por um novo projeto educativo na ilha Terceira ligado ao Colégio de São Tomás em Lisboa.

“Esta Encíclica apela a uma espiritualidade ecológica de comunhão com a terra e com os elementos naturais”, diz, ainda Tomaz Dentinho, lembrando que o ponto de partida, além do diagnóstico da atual situação do planeta é também o “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis.

“Depois da queda do comunismo tudo assenta na lógica da economia e da tecnologia e esquecemo-nos do homem que deve ser o primeiro a valorizar a sua relação com o meio natural não numa perspetiva individual mas de partilha de um bem comum”, refere, por outro lado, o professor universitário.

“Como estamos obcecados pelo primado da tecnologia e da economia, resumimos tudo a isso esquecendo-nos dos valores e, por isso é preciso devolver humanidade à relação com a natureza”, precisa Tomaz Dentinho que vê nesta encíclica também uma critica feroz aos ambientalistas que “dão igual valor à vida de uma planta e de um homem”.

Para o professor da Universidade dos Açores há também uma referência específica à noção do pecado constituindo assim “um desafio à ciência, à religião e às ideologias para que se preocupem com o longo prazo na definição de estratégias de preservação do meio ambiente” e, nisso “vai muito para além do senso comum”, conclui.

Tomaz Dentinho elogia, finalmente, o facto do papa ter colocado o desafio ecológico “numa perspetiva humanista e de lembrar ao mundo o destino de solidariedade entre todos” .

O Papa Francisco publicou hoje a sua primeira Encíclica sobre ambiente apelando ao homem para rever a sua conduta e inverta a trajetória de destruição do ambiente que tem vindo a trilhar.

A Laudato Si é um documento extenso de quase 100 páginas onde o chefe da Igreja Católica chama a atenção dos líderes mundiais para a necessidade de adotarem medidas concretas e urgentes para a preservação do meio ambiente.