Tenho como certo que a eleição do Papa Francisco foi milagre

Muito agradeço ao Sítio Igreja Açores a oportunidade que me dão de mais uma vez dar público testemunho da minha admiração e devoção por Sua Santidade, o Papa Francisco, que tem vindo a impor-se como referencia ética e social para toda a Humanidade, ultrapassando os limites da Igreja Católica.

Tenho como certo que a eleição do Papa Francisco foi o milagre porque esperavam os pobres, os oprimidos, os esquecidos e os sem voz, bem como aqueles que no dia a dia assumem a luta por um Mundo mais justo e que desesperavam de encontrar um líder que espalhasse luz, mostrando que existem outras soluções neste mundo, que não aquelas que todos os dias nos fazem ir sentido mais pobres, mais vulneráveis e mais amargurados.

Das múltiplas intervenções públicas que nos transmitem a sua mensagem, sou obrigado a destacar apenas algumas e de modo sintético.

Assim, como esquecer que a primeira viagem de Francisco foi à Ilha de Lampedusa, símbolo da vergonha europeia, para chorar os mortos que ninguém chora – os pobres emigrantes que tentam atingir a terra prometida, simbolizada pela Europa, não hesitando em qualificar de vergonha a política de imigração e asilo e lembrando que José, Maria e Jesus foram, também eles, refugiados?

Ou que, noutra ilha – a Sardenha – falou emocionado do flagelo do desemprego, explicando que “sem emprego não há dignidade”?

Ou o recado que mandou ao Forum de Davos, que reúne os ricos e poderosos deste Mundo, exortando a que os trabalhos conduzissem a definir uma ordem em que a humanidade não servisse a riqueza, mas a riqueza servisse a humanidade?

Ou, finalmente da sua concepção global da sociedade, em passagens tão lapidares como: “assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social”?

Mas este Papa, capaz de uma extraordinária capacidade de reflexão e de compreensão do Mundo, é também o primeiro empenhado em demonstrar a simplicidade e recusa de confortos e privilégios, que a todos dispensou, justificando bem o feliz titulo do livro de Leonardo Boff, Francisco da Assis, Francisco de Roma.

E é este o Papa que não hesita em alertar para as quinze enfermidades da Cúria Romana, afirmando com total coragem e abertura: “estas doenças e tentações são naturalmente um perigo para todos os cristãos e para toda a Cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial, porque enfraquecem o serviço ao Senhor”.

Ao desejar uma vida longa, santa e plena de realizações ao Papa, fazemo-lo com o mesmo sentimento que décadas atrás nos sobressaltou, com o Papa João XXII. São estes os momentos, em que a expressão Habemus Papam ganha todo o significado. Assim tenhamos forças, humildade e coragem para seguir o seu exemplo.

 

Eduardo Paz Ferreira, Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa