Por Carmo Rodeia

As palavras do telegrama que o Papa Francisco, a caminho do seu longo périplo pela América Latina, enviou ao Presidente da República enquanto sobrevoava Portugal são do mais oportuno: “Invoco benevolência divina para que seja consolidada nela esperança e alegria de viver na harmonia e bem-estar de todos seus filhos”.

Ontem a Grécia foi a votos.

Portugal não é a Grécia. Para o bem e para o mal. Mas os votos que o Santo Padre fez para Portugal, já os tinha feito na semana passada aos Gregos,  que ontem se pronunciaram sobre uma pergunta capciosa mas que, no essencial, lhes pedia para dizer sim ou não a mais austeridade, como a subida do IVA nas ilhas , mesmo sabendo que a Grécia é um país de ilhas a que o Estado deve solidariedade ou para a restauração e hotelaria, mesmo cientes de que a Grécia já quase só vive do turismo, entre muitas outras medidas que se aplicam a quem tem de sobreviver, num contexto dificílimo, cujo objetivo último parece ser a capitulação de uns quantos, humilhando quase um povo todo.

A classe média grega está completamente estilhaçada – a Grécia tem mais de um milhão de pobres, feitos nos últimos cinco anos-. O país vive uma crise humana e social sem precedentes. Tem uma dívida de mais de 300 mil milhões de euros. Mais de metade dos jovens está desempregada. Idosos, crianças e desempregados perdem direito à saúde. Situações sociais calamitosas que vivem com o outro lado da moeda: corrupção e fuga aos impostos. Mais de metade da população grega não paga impostos. Não porque não possa (estamos a falar por exemplo dos grandes Armadores Gregos ou da Igreja Ortodoxa, a maior proprietária fundiária do país) mas pura e simplesmente porque consegue escapar-lhes.

No meio dos problemas sérios fica a dignidade dos Gregos, de cada um deles, aquela que deve permanecer no centro de qualquer debate político e técnico, bem como na hora de tomar decisões responsáveis, como alertava a semana passada o Papa Francisco.

O castigo não é uma política económica. E, portanto, não resolve coisa nenhuma a não ser abrir caminho para novas injustiças e novos castigos.

O resultado deste referendo, como o das últimas eleições legislativas que deu a vitória ao Syriza, é a consequência de terem encostado o povo grego à parede. De lhe terem dito, sem mais explicações, que era a austeridade ou a austeridade, sem alternativa.

Até quando é que a Europa para ser União tem de continuar com esta forma de fazer política? Em que a harmonia de uns quantos põe em causa o bem estar de todos?

A história mostra que os Gregos nunca se deram bem com a democracia, que é apesar de todas as imperfeições o mais perfeito de todos os sistemas políticos. A História da Guerra do Peloponeso evidencia como as virtudes dos valores democráticos nem sempre se traduziram em virtuosas decisões em favor do bem comum. Um problema que parece ter contagiado a Europa. Mas não tem que ser, necessariamente, uma inevitabilidade.