A comunicação social divulgou há dias a morte de um doente com Hepatite C e muitos nos apercebemos da interpelação feita por um outro doente ao Ministro da Saúde no Parlamento.

Mais tarde, o Ministro veio dizer que chegou ao melhor acordo conseguido com a empresa farmacêutica fornecedora do remédio e que haverá um custo de umas dezenas de milhões de euros por ano para salvar vidas e tentar erradicar a doença.

O tema é sério e assim foi tomado por toda a gente. Também por isso vale a pena pensar um pouco sobre ele tentando discernir o que pensar e fazer sobre este caso e sobre outros semelhantes que venham a ocorrer.

A questão é saber como é que se podem salvar vidas com os meios que temos?

A Madre Teresa de Calcutá deu-nos o primeiro testemunho na Índia, onde são genericamente reduzidos os meios disponíveis para salvar a vida de uma pessoa anónima. Nesse contexto Santa Teresa começou por dar uma morte digna aos que morriam na rua e fazendo-o acabou por salvar a vida de muitos. É esta a primeira falha no apoio aos doentes: a nossa falta de atenção ao próximo que naturalmente se reflete também na morte de pessoas que recorrem às urgências em estado grave e para quem não parece existir nenhum próximo. Alguém que, ao menos, grite para que um outro que está a morrer seja atendido depressa. E a culpa dessa falha é nossa e não da urgência ou do sistema de saúde. Porque por vezes não estamos lá quando os que nos são próximos precisam, porque achamos que não é connosco quando alguém ao lado precisa, ou porque não temos sequer ânimo e a coragem para avisar e se necessário gritar.

Num nível diferente está a regra de jogo dentro do sistema de saúde. Por que razão os doentes de Hepatite C vão interpelar publicamente o Ministro da Saúde antes de falar com os Gestores do Hospitais? Por que razão os Gestores dos Hospitais preferem reduzir custos em vez de maximizar os benefícios face aos meios que têm? Argumentarão que a unidade de saúde não trata os doentes porque não tem meios suficientes para o fazer. Mas imaginemos que as receitas do Hospital dependem dos doentes tratados e dos moribundos salvos! Nessa altura fariam o possível por racionalizar os meios que têm para tratar bem os doentes e acompanhar e salvar os moribundos.

Não basta que o Ministro faça a gestão da Hepatite C quando avisado pela comunicação social. Não chega que uma família junte o que tem e o que não tem para tratar alguém que é próximo num hospital privado quando o hospital público evita o doente porque tem que controlar custos. É insuficiente um sistema que, para funcionar, tem que recorrer ao grito pela proximidade quando parece haver possibilidade de haver proximidade sem gritos.

As vidas salvas pelo remédio da Hepatite C valem naturalmente mais do que os milhões de euros dos custos regateados dos remédios. O drama é que as outras doenças menos mediatizadas não têm a mesmo percurso e mesmo assim foi preciso alguém morrer para que houvesse reação. O problema é que não há forma de reduzir desperdício de um lado para atender à salvação da vida de muitos. A menos que os gestores dos hospitais tenham como incumbência atrair doentes para salvar num sistema em que os Hospitais sejam pagos pelos doentes que tratam e pessoas que salvam e não pelos custos que reduzem evitando doentes.

Tomaz Dentinho