Leão e a Besta

Pelo padre José Júlio Rocha

Pete Hegseth, Secretário da Defesa dos Estados Unidos, é um cristão convicto. Não é católico, é evangélico, apesar de exibir, quando despe a camisa, a tatuagem de uma poderosa cruz que cobre toda a parte direita do peito, a lembrar, longinquamente, os neonazis e as suas insígnias impantes. Não sendo católico, participou numa missa na Casa Branca, onde, qual cristão consciente e convicto de estar na verdade, rezou assim: «Que cada bala encontre o seu alvo contra os inimigos da Justiça e da nossa grande nação (…) Que tenhamos uma união inquebrantável e uma violência esmagadora contra os que não merecem misericórdia». Há poucas orações mais próximas do Pai-nosso do que esta.

A intervenção militar no Irão deveria durar, no máximo, 36 horas. Já vai em dois meses e ninguém sabe como acabá-la. Entretanto, Trump, incomodado com a demora do Irão em declarar derrota incondicional, afirmou, com a sua natural delicadeza: «Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada». Só de um crápula como Trump podia vir uma declaração de tamanha repugnância, o que traduz uma verdade incontornável: Trump já perdeu esta guerra.

Leão XIV cumpriu estritamente a sua missão, isto é, num mundo onde a lógica do ódio e da guerra tendem a imperar, ser ele, como deve ser, paladino da paz. Como não podia deixar de ser, instado pelos média, o Papa disse que aquela declaração de Trump era inaceitável.

Desabou, então, a fúria pela Casa Branca abaixo. Trump acusou o Papa de ser «terrível em política externa e fraco em relação ao crime», aconselhando-o a ter mais cautela, até porque – imagine-se – Leão XIV foi eleito porque Trump era presidente e – julga bem quem assim pensa – o Papa devia estar eternamente agradecido ao presidente americano.

A imagem que Trum publicou, como um Jesus Cristo salvador, que cura os doentes e traz a luz à humanidade, talvez tenha sido o melhor retrato de si mesmo: não passa de um narcisista maligno, dizem os especialistas.

Enquanto Leão XIV, provocado pela imprensa, disse simplesmente que não tem medo de Trump nem de anunciar o Evangelho. Na Casa Branca, a fúria alastrou a toda a administração, uma cambada de incompetentes que só lá estão por fidelidade canina ao grande líder e que, agora, estão caindo como tordos: Kristi Noem, Pamela Bondi e o secretário da Marinha, um tal de John Phelan, que, não sabendo distinguir entre um avião e um navio, foi escolhido por ter financiado chorudamente a campanha de Trump.

J.2424D. Vance aconselhou o Papa a ter mais cuidado quando falasse de teologia (misericórdia!!!!) e o tal Pete Hegseth, o Secretário da defesa que tem uma cruz gigante tatuada no peito, sai em defesa acirrada do seu senhor, proclamando dramaticamente, com voz tonitruante, um versículo de ira divina do profeta Ezequiel que, afinal… não passava de uma dica do filme Pulp Fiction, de Tarantino. É possível alguém cobrir-se de maior ridículo?

O Irão dos Aiatolas é um perigo para o mundo, sobretudo na sua atitude de financiar o terrorismo. Putin e o seu sonho megalómano de uma grande Rússia também o é. Há outros estadistas, mais que muitos, que não contribuem em nada – antes pelo contrário – para um mundo mais justo. Ninguém, neste momento abstruso da História, é tão perigoso para o mundo do que Donald Trump e a sua esquizofrénica administração.

Vivem num mundo à parte, criaram um universo paralelo à realidade (o facto de Trump proclamar que já acabou com onze guerras diz tudo). E não sabemos quanto tempo o mundo levará a reerguer-se de uma das épocas mais sombrias da História contemporânea, certamente a mais negra desde o fim da segunda Guerra Mundial.

Entretanto, Leão XIV continuará o seu caminho. Trump, no fundo, tem medo dele. É esse o seu ponto fraco.

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