Por Renato Moura

Paris, no coração da Europa, foi atacado, de forma horrenda, no passado dia 13. A civilização sentiu-se agredida. A escolha programada de lugares e meios para matar, de forma indiscriminada, homens e mulheres, de todas as idades, de várias nacionalidades, naturalmente de diversas crenças, sem que estivessem a cometer qualquer mal, não foi em nome de qualquer deus.

Não foi apenas a morte de muito mais de uma centena de pessoas. É o trauma de quem viu e escapou, mas jamais esquecerá; o de quem ficou, mas viu partir os seus; o pesar que abalou o mundo e a insegurança que inevitavelmente se gerou. Mais uma prova (e já são muitas) de que grassa a radicalização e o fanatismo.

Não há dúvidas, cada vez são mais os que não têm valores, nem respeitam os princípios básicos da convivência humana. É horrível perceber que as ameaças à liberdade não vêm apenas do exterior duma Europa que se julga evoluída, mas são preparadas, treinadas e perpetradas por gente que foi educada nas escolas europeias e vem engrossando as fileiras do auto proclamado estado islâmico.

“Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” foi a frase do Evangelho de S. Mateus que me veio à memória. Nenhum esperaria partir naquela hora fatídica de martírio, mas pela misericórdia divina certamente acolhidos.

Voltou a demonstrar-se que as autoridades policiais não estão ainda preparadas para vigiar com eficiência, em qualquer dia ou hora. É um problema de prevenção e de eficácia dos serviços secretos, que terão de ser capazes de garantir a segurança, sem pôr em causa as liberdades essenciais.

A França, vítima da pavorosa provação sofrida, levou a que a Europa se sentisse globalmente agredida. Só que a defesa mútua e a cooperação não deveriam ser apenas na ameaça de guerra. A política europeia, as instituições e os fracos líderes que as implementam, crescentemente decepcionam os cidadãos e estão muito longe de ser o projecto de desenvolvimento solidário que os seus fundadores haviam sonhado. É urgente a Europa discernir melhor o que decidir e corrigir a forma de actuar.

Concordando ou não que se estão a colher tempestades dos ventos semeados, é tempo de ponderar com serenidade, até mesmo as solidariedades porventura inesperadas e decifrar como fazer cessar o poderio financeiro e militar que alimenta o terrorismo. Os verdadeiros islamitas não são o problema e serão essenciais para a solução.

Liberdade, igualdade e fraternidade não são apenas bandeira da França, mas deverão ser prática da Europa e do mundo.

(O autor escreve de acordo com ortografia antiga)