Igreja lembra legado de “grande consciência missionária”.

O arcebispo de Braga lamentou a morte do seu predecessor, D. Eurico Dias Nogueira, que morreu esta segunda-feira aos 91 anos de idade, considerando que o prelado deixa “um legado de uma grande consciência missionária”.

 

“É sempre difícil nestas horas sintetizar a vida de um grande homem e de um grande pastor, mas, particularmente, a sua capacidade de diálogo com todos, de diálogo dentro da Igreja e também com outras confissões no âmbito ecuménico e mesmo inter-religioso, que é um aspeto muito importante para os tempos que correm”, disse D. Jorge Ortiga, em declarações à Renascença.

 

O arcebispo primaz refere que o Concílio Vaticano II (1962-1965) foi um dos acontecimentos da vida da Igreja que marcou a vida de D. Eurico Dias Nogueira.

 

“Podemos considerá-lo como alguém que nos alerta para essa dimensão que a Igreja terá de continuar a acolher como uma mensagem para os dias de hoje, procurando uma Igreja que está no mundo, fazendo suas as alegrias e tristezas dos homens, para que os homens possam fazer uma experiência de libertação dessas mesmas experiências que vão fazendo no encontro com Cristo e no encontro fraterno dos homens”, acrescenta.

 

O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Morujão, também já disse  que o arcebispo emérito de Braga, Eurico Dias Nogueira, era um homem de Igreja, “sem fronteiras”.

 

“Foi um homem aberto, universal, sem fronteiras”, referiu o sacerdote, em declarações à Agência ECLESIA.

 

D. Eurico Dias Nogueira morreu segunda-feira à noite, aos 91 anos, depois de “internamento súbito” no hospital, informa a página na internet da Arquidiocese de Braga.

 

O falecido prelado era natural da Diocese de Coimbra e estudou em Roma; a 10 de julho de 1964 o Papa Paulo VI nomeou-o bispo de Vila Cabral, atual Lichinga, em Moçambique, tendo participado na terceira sessão do Concílio Vaticano II, assembleia que decorreu de 1962 a 1965.

 

Recebeu a ordenação episcopal no dia 6 de dezembro de 1964 e em 1972 foi transferido para Sá da Bandeira, hoje Lubango, em Angola; pediu a resignação da diocese angolana, aceite por Paulo VI a 3 de fevereiro de 1977, e a 5 de novembro do mesmo ano o Papa italiano nomeou-o arcebispo de Braga, missão que manteria durante mais de duas décadas.

 

O padre Manuel Morujão disse que D. Eurico Dias Nogueira foi “um pastor missionário, que não tinha fronteiras”, recordando que o prelado, natural da Diocese de Coimbra, passou por vários países antes de regressar a Portugal.

 

O secretário da CEP elogia um “homem clarividente e corajoso”, coerente com os seus princípios, que viveu “tempos conturbados, social e politicamente” em Portugal, após o 25 de Abril.

 

“Foi alguém que soube indicar o caminho certo, com coragem e valentia”, prossegue.

 

O padre Manuel Morujão presta a sua homenagem ao arcebispo “cordial, fraterno” que deixa “um sentimento de grande saudade e afeto”.

 

“Era uma pessoa muito afetiva, não era um tribuno frio, um governador que ficava na letra da lei, mas tinha uma relação próxima com as pessoas”, conclui.

 

Também o presidente da República lamentou hoje o falecimento de D. Eurico Dias Nogueira, que recorda como uma “personalidade marcante”.

 

“O seu exemplo e o seu testemunho de vida marcaram gerações inteiras, de crentes e não-crentes, que admiravam profundamente a coragem e a frontalidade com que D. Eurico Dias Nogueira defendia os princípios em que acreditava”, refere a mensagem de condolências enviada por Cavaco Silva à família do falecido prelado e à Conferência Episcopal Portuguesa.

 

O presidente da República fala num “um homem de fé, de convicções e de princípios” que foi “personalidade marcante da vida da Igreja portuguesa no século XX”.

 

“O seu magistério, profundamente influenciado pela renovação eclesial iniciada pelo Concílio Vaticano II, em que participou, pautou-se pela defesa dos valores essenciais da dignidade da pessoa humana”, sublinha a mensagem.

 

Aníbal Cavaco Silva acrescenta que D. Eurico Dias Nogueira defendeu esses valores “ao longo da sua trajetória de vida”, em Moçambique e em Angola e, mais tarde, na Arquidiocese de Braga.

 

A Câmara de Braga decretou hoje o cumprimento dois dias de luto municipal pelo falecimento do arcebispo emérito, cujo funeral se vai celebrar esta quarta-feira, às 15h30, na catedral da arquidiocese minhota.