Pelo Pe Teodoro Medeiros

Valerá a pena sair de casa? Com os aparelhos de televisão que existem hoje? Com as edições restauradas dos clássicos tão à mão? Há edições de filmes com 40 anos que têm melhor imagem que outros deste ano (!). Do outro lado, está o novo cinema digital, em que a definição é incrível; imagens perfeitas, apresentadas em definição 2k, num ecrã assim, a cair para o lado do grande.

Até alguns realizadores confessam: “-este ou aquele autor ficaria zangado se soubesse que delirei com a sua obra no conforto do meu lar? A experiência foi arrebatadora!” Mas, talvez, a questão não seja assim tão linear: a sala não poderia ter dado essa mesma experiência? Afastemos alguns fantasmas, primeiro.

Tecnicalidades. A qualidade não é, em geral, pior ou melhor, consoante o meio que se escolha: tanto pode ser superior num como no outro. Se existem raros casos de cinema nas salas a 4k, o mesmo se aplica aos aparelhos domésticos. Sem se esquecer que falar de 4k é dizer quase nada.

Ou seja, 4k é a possibilidade máxima da máquina, mas, se a fonte for mais comezinha, fica-se a ver o equivalente a muito menos. O velho “o meu carro dá 250 à hora mas eu nunca experimentei”. Inútil e presunçoso: a posição caseira pode cair nisto. E deixemos de lado as demonstrações das lojas que vendem tvs de 4k (ainda não estás perdoado Photoshop: vai-te embora e leva contigo a dignidade que nunca tiveste).

Destrua-se a mentira: o celuloide Kodak, película antiga, pode chegar (caso dos 70 mm) a um impressionante 16k. O que, se não falha a tabuada básica (4×4=16), é 4 vezes superior às modernices I-Max. Claro que não são projetados nessa definição: mas a qualidade da fonte está lá. De resto, é essa a razão para o espanto dos tais filmes com 40 anos, nas suas edições Blu-ray.

O argumento é circular: pode-se discutir até ao fim dos tempos.

Não tecnicalidades. O ecrã da sala é maior, muito maior; o som também ganha outra dimensão, mais espaço de manobra, mais efeito estéreo; a solenidade de sair de casa com um objetivo preciso é um investimento psicossomático e, vá lá, afetivo. Este último aspeto será sempre ambíguo: afeto pela companhia ou pelo filme?

Viva a introspeção, a que o cinema dá. Encará-lo como forma de responder à pergunta de como ser-se uma pessoa melhor. Quando se é novo, a resposta é ter músculos como o Schwarzie, mas isso muda depressa (por razões de, digamos, força menor). Mas há dimensão espiritual do cinema. Que não devia ser confundida com ver filmes sobre a vida deste ou daquele santo.

E porquê? Porque os filmes religiosos são, muitas vezes, unidimensionais e simplistas. Digamos que os evangelistas e os escritores da Bíblia fariam muito melhores filmes e com as mesmas intenções pias. Como é que se sabe isso? Talvez porque já o fizeram. É o que demonstra, por exemplo, São Marcos em 8, 14-17: o narrador diz que há um pão no barco, os discípulos que não têm pão, Jesus que eles não percebem nada (será Ele o tal pão?). E encontrar quem filme estas coisas?

Mas voltemos atrás, às salas de cinema: nas de Roma acontece um pouco de tudo. Assim, alguém pode estar a comer a sua tranquila fatia de pizza, ao nosso lado, suprindo a conhecida incapacidade de aromatização da sétima arte. E a terceira idade não se coíbe de sair à rua e entrar dentro das salas. Grandes acertos, grandes falhanços.

No primeiro caso, o recém viúvo toma na sua mão um desconhecido molhe de cartas, correspondência da sua falecida. Antes de qualquer coisa mais, uma senhora partilha a sua premonição com os felizardos sentados perto dela: “-e agora… a mudança.” Em cheio, as coisas mudaram bastante no luto do homem que se iria descobrira não tão amado como pensara.

No segundo caso, o recente filme “45 anos”. Aqui ela descobre, poucos dias antes dos tais 45 anos se cumprirem e se fazer a grande festa, que ele sempre amara uma antiga paixão, já falecida. O filme apresenta a semana anterior à festa… segunda, terça, etc. Chega-se a quinta feira, 3 dias para a festa, e uma voz pergunta à neta, na fila à minha frente: “-3 dias para que festa?”

Pode acontecer ir ver o décimo mandamento, do Kieslowski. A surpresa de ver os 2 irmãos perderem a sua herança, a preciosa coleção de selos que, a páginas tantas lhes é roubada. Só mais tarde, é verdade, me apercebi de que nós os 2, amigos há tantos anos, éramos como aqueles irmãos. Tínhamos investido o nosso tempo e algum do vil metal; mas tínhamos redimido o que é a amizade, assim como eles a consanguinidade.

Saber perder bem o tempo, no cinema e na vida. Como se dizia no Principezinho, foi o tempo que passaste com a tua rosa que a tornou tão especial. Não há purificação sem o tempo da procura: sem a privatização dos sentimentos. Porque, e vale também para o ir à igreja, também há quem se eleve acima dos outros: tanto que até partilham as lágrimas e os soluços.

Após a projeção de “O espelho” de Tarkovsky, alguns especialistas explicavam o significado do filme. Que podia ser uma metáfora disto e daquilo, opressão que era representada assim e da outra maneira. Símbolo e poesia nas imagens. A senhora da limpeza, esperava, um pouco impaciente, que terminassem, para poder fazer o seu trabalho e ir embora.

Mas eles continuavam, discordando uns dos outros, oferecendo interpretações mais rebuscadas e complexas. Até que ela pediu palavra e disse que o filme era sobre um homem em fim de vida; as suas recordações e os seus remorsos.

À memória de Maria de Lurdes Jerónimo.