Por Carmo Rodeia

No Vaticano, esta terça-feira, as bandeiras desceram a meia haste pelas vítimas da Covid-19. A Itália registou até agora 11.591 mortes, o número mais alto no mundo; a Espanha tem 7.340 mortes, a China continental 3.304, a França 3.024 e os EUA 2.828 óbitos registados. Nos Estados Unidos, as mortes segundo as projeções podem chegar mesmo às 100 mil.  No Reino Unido, só ontem, morreram 381 pessoas infetadas.

A pandemia está a colocar a Europa em brasa. Os serviços de saúde, mais perfeitos, estão a colapsar, procurando dar resposta para além das suas forças.

Mas, para o Papa, as vítimas vão além daqueles que perderam a vida, e por isso, neste dia de luto Italiano, rezou pelos sem-abrigo, em tempos de pandemia, pedindo a ação da sociedade e da Igreja em favor desta população.

“Rezemos hoje pelos que estão em situação de sem-abrigo, neste momento em que nos é pedido para estar dentro de casa: para que a sociedade de homens e mulheres se aperceba desta realidade, os ajude, e a Igreja os acolha”, disse, antes da Missa a que presidiu na Capela da Casa de Santa Marta, com transmissão online.

E já agora, além dos sem abrigo (e nós também por cá temos muitos e as instituições que os alimentam andam numa roda viva para conseguir sustento sem que disse se tenha feito ainda grande eco na comunicação social…) também não nos devemos esquecer dos migrantes que povoam milhares e milhares de quilómetros, desaconchegados em campos de refugiados sem o mínimo de salubridade, nas fronteiras da Síria, da Turquia, do México, e de tantos outros lugares.

Não deixa de ser curioso que na Síria, paredes meias com o Irão, o país mais afetado do Médio Oriente, não haja oficialmente qualquer caso de Covid-19. Num país onde só metade dos hospitais continua a trabalhar, depois de nove anos de guerra, os dados oficiais só nos podem fazer sorrir. De raiva! Por outro lado, os mais de 200 campos de refugiados que existem só no noroeste da Síria, na fronteira com a Turquia, não têm condições mínimas de higiene, as pessoas não têm água potável, a comida é muito escassa e nas poucas tendas estão às vezes quatro ou cinco famílias. Como é que poderá ser feito o isolamento de pessoas, que não têm casa, que vivem na rua, debaixo das poucas árvores que existem ou ocupam escombros de prédios destruídos pelas bombas do regime, apoiado pelo governo Russo…E, este é só um exemplo de muitos outros que deixaram de ser notícia por causa da primazia das mortes ( e bem!) no primeiro mundo, o mundo ocidental onde há liberdade de imprensa e de expressão, tantas vezes condicionada por tantas outras coisas.

Como está a situação em Calais, em França, às portas do Canal da Mancha, onde milhares de imigrantes africanos esperam o dia em que podem atravessar o túnel para chegar a Inglaterra. Ninguém ainda foi infectado pelo Covid-19?

Como está a situação na fronteira com a Turquia, que ainda há pouco tempo ameaçava a Europa com a abertura de fronteiras permitindo a passagem de mais de 3 milhões de refugiados do Médio Oriente. Ainda não chegou lá o vírus?

Como está a situação em Lesbos ou Lampedusa, naqueles campos e centros de refugiados. Estarão todos imunizados?

Hoje, ao ler o Expresso curto, o Rui Gustavo, jornalista de sociedade deste jornal, contava a história de uma conversa entre um aluno e a antropóloga Margaret Mead sobre qual era o primeiro vestígio de civilização humana. A antropóloga americana, autora de “Adolescência, sexo e cultura em Samoa”, respondeu: “Um fémur com 15 mil anos encontrado numa escavação arqueológica.” E Mead explicava: “O fémur estava partido, mas tinha cicatrizado. É um dos maiores ossos do corpo humano (liga a anca ao joelho) e demora seis semanas a curar. Alguém tinha cuidado daquela pessoa. Abrigou-a e alimentou-a. Protegeu-a, ao invés de a abandonar à sua sorte”. Concluía o jornalista português : “partimos o fémur e vamos precisar de tomar conta uns dos outros. Durante bem mais de seis semanas. E cada um tem de fazer a sua parte. Para a maioria, isso implica não fazer nada e ficar em casa”. Pois, sem dúvida! Mas, para quem é cristão além de ficar em casa, cuidando-se a si e consequentemente aos outros, como fez a Maria, de Betânia, cuja história era relatada no Evangelho de domingo passado e sobre o qual já falei aqui neste espaço, é preciso fazer mais. Neste contexto de doença, e estamos a fazer, mas já de olhos postos no que vem por aí.

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e presidente da Cáritas Internacional, propôs um jubileu especial em que os países ricos perdoem aos países pobres a dívida contraída, de forma a que estes tenham condições para combater a pandemia de covid-19. Na tradição bíblica, um jubileu era um ano em que se perdoavam dívidas e deixavam terras em pousio.

“Agora, damo-nos conta de que não temos máscaras faciais suficientes, enquanto os projéteis são abundantes. Não temos ventiladores suficientes, mas temos milhões de pesos, dólares e euros para gastar num avião que pode atacar pessoas”, alertou o ex-arcebispo de Manila. Esta falta de recursos poderá ser o “túmulo” dos países pobres, afirmou, defendendo que as despesas militares dos governos deverão ser reorientadas para as áreas da educação, habitação e saúde.

Por outro lado, a Oxfam, ONG de luta contra a pobreza, e presente em mais de 90 países pobres, pediu esta segunda-feira, “um plano de emergência para a saúde pública” com a mobilização de 160 mil milhões de dólares para o combate à pandemia de covid-19 nas regiões menos favorecidas do globo. Este valor permitiria duplicar os gastos com a saúde nos 85 países mais pobres, onde vive quase metade da população mundial.

“No Mali, existem apenas três ventiladores para um milhão de pessoas. No Sahel [região africana entre o deserto do Sara e a savana do Sudão], há menos de um médico para cada 10.000 pessoas”, alertou Robin Guittard, porta-voz da Oxfam France, em declarações ao jornal francês La Croix.

“Tenhamos presente quem sofre”, disse o Papa. E quem sofre no primeiro mundo não sofre mais do que aquele que não tem voz para mostrar o seu sofrimento.

Quando a casa está a arder temos de apagar o fogo. E a Europa está em chamas. Mas os decisores mundiais- políticos e financeiros- têm de ser capazes de ver a extensão do fogo que está para além da nossa porta.