Começa este domingo um novo ano litúrgico que será centrado no Evangelho de Marcos, um dos dois evangelistas que não foram discípulos diretos de Jesus, como São Mateus e São João.

O autor do mais antigo dos relatos evangélicos era filho de Maria de Jerusalém, em cuja casa São Pedro se refugiou após ser libertado da prisão(cf. At 12, 12). Era primo de Barnabé. Acompanhou São Paulo na sua primeira viagem a Roma (cf. Col 4, 10) e esteve próximo dele durante a sua prisão em Roma (Fm 24).

Depois, tornou-se discípulo de São Pedro, cuja pregação foi a base para o Evangelho que escreveu (cf. 1 Pe 5, 13). O seu Evangelho, aliás, é comumente reconhecido como o mais antigo, utilizado e completado por São Mateus e por São Lucas. Parece que também os grandes discursos da primeira parte do Atos dos Apóstolos são um regresso e um desenvolvimento do Evangelho de São Marcos, a partir de Mc 1, 15.

Pedro citou várias vezes o nome de Marcos. Na sua primeira Carta, por exemplo, lemos: “A comunidade que vive em Babilônia (Roma), escolhida como vocês, manda saudações. Marcos, meu filho, também” (1Pd 5,13). E ainda, nos Atos dos Apóstolos, após a libertação “milagrosa” de Pedro da prisão: “Pedro então refletiu e foi para a casa de Maria, mãe de João, também chamado Marcos, onde muitos se haviam reunido para rezar” (Atos 12,12).

Depois da morte do Príncipe dos Apóstolos, não se têm mais notícias de Marcos. Uma antiga tradição diz que ele foi evangelizar o Egito, onde fundou a Igreja de Alexandria.

O evangelista Marcos morreu, provavelmente, entre os anos 68 e 72, talvez como mártir de Alexandria, no Egito. Assim escrevem os Atos de Marcos, no IV século: “No dia 24 de abril, os pagãos o arrastaram pelas ruas de Alexandria, amarrado com uma corda no pescoço. Jogado na prisão, foi confortado por um anjo. Mas, no dia seguinte, sofrendo atrozes suplícios, morreu. Seu corpo devia ser queimado, mas, salvo pelos fiéis, foi sepultado em uma gruta. Dali, no século V, foi trasladado para uma igreja.

Marcos foi considerado o “estenógrafo” de Pedro e o seu Evangelho foi escrito entre os anos 50 e 60. Segundo a tradição, transcreveu a pregação e as catequeses de Pedro, dirigidas, sobretudo, aos primeiros cristãos de Roma.

As palavras do Evangelho de Marcos “Ide por todo o mundo e proclamai a Boa Nova a todas as criaturas” – explicou, uma vez, o Papa Francisco, indicam, claramente, o que Jesus quer dos seus discípulos.

Em 1071, São Marcos foi escolhido como titular da Basílica e principal Padroeiro da Sereníssima. Na época, Veneza era, indissoluvelmente, ligada à pessoa do Evangelista, cujo símbolo, um leão alado, – que traz um livro com a escrita: “Pax tibi, Marce, evangelista meus” (Paz a ti, Marcos, meu evangelista) – se torna o brasão da cidade, colocado em todos os lugares dominados pela Sereníssima, título dado à República de Veneza.

São Marcos é Padroeiro dos tabeliões, escrivães, vidraceiros e ópticos. É venerado como Santo por várias Igrejas cristãs, além da Católica, como a Ortodoxa e a Copta, que o considera seu Patriarca.

Ouvido pela Agência Ecclesia, o padre Mário Sousa, biblista, apresenta o evangelista São Marcos, como aquele que convida a aprofundar a relação que cada pessoa tem com Jesus.

“Marcos não narra nada da infância de Jesus, a sua obra não foi escrita para satisfazer a nossa curiosidade, ele vai ao essencial. Marcos diz-nos logo ao que vem. O início da sua obra aponta Jesus como o Cristo, filho de Deus. O essencial é a identidade de Jesus e a relação com ele”, explica o padre da diocese do Algarve e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora.

O especialista reconhece que ao longo do Evangelho de São Marcos, o leitor que, “desde o início sabem quem é Jesus”, vai-se “deparando com respostas incorretas como também acontece “serem os espíritos impuros a proclamar quem Jesus é”, factos que podem confundir e “criar tensão”.

“O grande convite é o confronto do nosso discipulado e das motivações profundas da nossa relação com Jesus, porque podemos ser religiosos sem nunca ser discípulo. Quer isto dizer que Jesus não quer profissões de fé apressadas, é preciso um caminho, um amadurecimento da fé”, indica.

O padre Mário de Sousa indica São Marcos como o evangelista das “periferias”.

“Quando Jesus se aproxima dos desvalidos e desconsiderados, os que estavam à margem da sociedade há uma grande reação, porque uma grande incapacidade de aceitar a Boa Nova, que indica que, em Jesus, Deus se fez próximo de todos, e de uma forma particular, dos que estavam à margem da vida social e até da vida religiosa. Isto não é do Papa Francisco, ele é que é tremendamente cristão e por isso convida-nos à purificação do discipulado”, sublinha.

O padre Mário de Sousa refere também a importância de todos se “reconhecerem a caminho”.

“Todos estamos a caminho e quando nos achamos feitos, fechamos as portas a Deus, perdemos a capacidade de nos deixarmos surpreender. Já temos as respostas e já sabemos as perguntas. Nem estamos abertos à novidade nem nos deixamos surpreender pelas perguntas e provocações que Deus nos faz”, lamenta.

(Com Vatican News e Agência Ecclesia)