Pelo padre José Júlio Rocha

Evitar-se-á, em relação a eles (homossexuais), qualquer sinal de discriminação injusta. (Catecismo da Igreja Católica, nº 2358)

Estudei na Accademia Alfonsiana e tenho a honra de ter conhecido professores que foram o eixo da Teologia Moral antes e depois do Concílio: Barnhard Häring, Domenico Capone, Marciano Vidal, Louis Vereecke, Sabatino Majorano.

A Accademia inspira-se na moral de Santo Afonso Maria de Ligório, fundador dos Redentoristas, bispo nos arredores de Nápoles e patrono dos moralistas. A vida de Afonso de Ligório sofre uma reviravolta quando deixa de ser canonista e começa uma vida pastoral de bispo. O contacto com as pessoas simples e com os seus problemas reais alteraram a sua visão da moral. É ele próprio que conta que foi educado na “sentença severa”, isto é, na moral rigorista, enquanto estudava, ensinava e exercia o direito; mas, depois de se tornar pastor, de contactar com pessoas e seus dramas, converteu-se à “sentença benigna”, ou seja, a uma moral mais fundamentada na misericórdia e menos na lei.

Recordo aqui Santo Afonso numa hora em que o Carmo e a Trindade começam a tremer depois da afirmação do Santo Padre em que ele refere a necessidade de os Estados oferecerem proteção legal para uniões entre pessoas do mesmo sexo. Já apareceram opiniões a decretar que Francisco entrou em rutura com a doutrina da Igreja neste aspeto. Ao menos que estivesse calado e não desse opiniões pessoais, porque, para além de cristão, ele é Papa e é sempre como Papa que ele fala.

Em primeiro lugar, é importante referir que esta posição do Papa nada tem a ver com questões de doutrina de costumes mas simplesmente com questões pastorais. Há anos a esta parte que a Igreja vem afirmando que a pessoa homossexual não pode ser vítima de discriminação em relação à sua condição sexual. Como se põe esta boa intenção em prática? Que gestos se podem fazer para que a pessoa não seja discriminada pela sua sexualidade? O Papa Francisco passou à ação e optou pela misericórdia. Misericórdia não é ter pena, ter dó, nem sequer é simplesmente solidariedade ou empatia. É ter o coração ao lado de quem sofre. E entre a gente que sofreu, ao longo da história, as mais pesadas discriminações, os homossexuais encontra-se patentemente nesse grupo. Desde perversão a doença, de crime hediondo a pecado inominável, de pessoa de condição inferior a tarado sexual, todos os nomes foram decalcados e todas as armas de destruição foram apontadas a quem, sem culpa, vive uma condição sexual diferente.

Convenhamos que a sexualidade é o elefante na loja de porcelanas da moral católica. Sobre isso escrevem-se compêndios inteiros e exige-se, cada vez mais, uma posição equilibrada. As achegas que Freud e seus sequazes vieram trazer sobre a compreensão da sexualidade não podem cair em saco roto. A sexualidade é uma energia vital poderosa e abrangente, que condiciona todos os nossos comportamentos. Não é apenas um compartimento da nossa existência que nos permite procriar. Somos seres sexuados e isso abrange todos os aspetos da nossa vida, desde o modo como sorrimos à forma como choramos.

Pessoalmente, não gosto da expressão “orientação sexual” e muito menos de “opção sexual”. Prefiro “condição sexual”, uma vez que não temos, nem no corpo nem na alma, nenhum sistema que permita reorientarmos ou mudarmos a nossa sexualidade. Se assim fosse, tenho a certeza de que, no passado, todas as pessoas de condição homossexual utilizariam esse sistema e virariam heterossexuais, tal era a força da pressão social que os trucidava em tempos idos.

Tenho amigos homossexuais, muitos deles profundamente cristãos. Já falei com vários sobre o assunto. Ninguém imagina os dramas íntimos dessas pessoas. Toda a gente sabe que a estabilidade emocional, a alegria de viver e, se quisermos, a felicidade também passam por uma sexualidade integrada, aceite, equilibrada. Muitas dessas pessoas vivem dramas indizíveis, com depressões reativas recorrentes, quantos deles rejeitados pelos próprios familiares que veem neles uma mancha que denigre a honra da família. Há sociedades onde os homossexuais ainda são condenados a penas de prisão ou até de morte.

O Papa não canonizou o casamento gay. Nem sequer quis tocar em questões de doutrina de costumes a respeito da condição hétero ou homossexual. Não disse que isso é tudo a mesma coisa nem o contrário. Apenas afirmou, na essência, que as pessoas não devem ser discriminadas em virtude da sua condição sexual e que a comunidade civil deve zelar para que isso não aconteça.

Tudo o que é genuinamente humano é genuinamente cristão. Francisco foi profundamente humano.

*Este texto foi publicado na edição deste sábado, dia 24, do Diário Insular, na rubrica Rua do Palácio